Nos últimos dias do ano, passou o centenário do nascimento de um notável artista plástico contemporâneo, que se singularizou como ceramista, pintor e escultor, fazendo moderna uma tradição antiga em que Portugal se destacou. Tive o gosto e a honra de trabalhar de perto com o mestre e amigo, num projeto que me foi transmitido por Roberto Carneiro e que prossegui com muito prazer e belos resultados. Perante as iniciativas espontâneas das escolas de introduzirem elementos decorativos por intervenção de professores e alunos, verificava-se uma grande heterogeneidade de situações, muitas delas sem qualidade ou sem o necessário equilíbrio e a exigência artística adequada. Daí ter sido decidido criar uma equipa constituída por artistas consagrados, que passaram a apreciar e a acompanhar os projetos apresentados pelas escolas. Querubim Lapa, Francisco Simões e Manuela Pinheiro, com provas dadas nos domínios da cerâmica, da escultura e da pintura, foram os escolhidos e empenharam-se nessa tarefa de modo exemplar. O resultado da experiência foi excelente, como reconheceram as comunidades escolares, professores e estudantes, que recordam com orgulho os resultados alcançados graças à interação entre a escola e os artistas, que assim se tornaram intervenientes ativos na criação de estabelecimentos mais atraentes e motivadores da criação artística. Francisco Simões é uma referência no nosso panorama artístico. Manuela Pinheiro, que há pouco nos deixou, tem uma obra assinalável que merece especial atenção, sugerindo-se que o Ministério da Educação possa atribuir o seu nome a uma das escolas com a qual a artista esteve ligada. De facto, a aprendizagem torna-se mais viva, mercê do reconhecimento da importância das artes. Por isso, promovemos também a presença nas escolas de escritores, poetas e artistas, com resultados extraordinários e inesquecíveis para a vida de estudantes e educadores.Querubim Lapa era um mestre. A vida das escolas atraia-o. Os diálogos que foi estabelecendo estavam cheios de boas lembranças: desde a participação no filme de Manuel Guimarães sobre Soares dos Reis, que o marcou decisivamente, até à partilha de experiências com António Ayres e Lagoa Henriques no mesmo ateliê. A partir de 1950 foi para a Escola de Belas Artes do Porto, onde trabalhou com Barata Feyo, um dos seus mestres mais influentes, abraçando a escultura como uma das suas artes de eleição, em ligação natural com o desenho e a pintura. Professor do ensino secundário, o ensino dos mais jovens era uma verdadeira paixão. Essa memória levou-o a dedicar-se com tanto entusiasmo ao projeto de renovação das escolas, a partir do trabalho de professores e alunos. A cada passo recordava o caminho que fez, desde os primeiros passos na Viúva Lamego, a colaboração com Lino António e o ensino na sua Escola António Arroio, cujas oficinas conhecia como ninguém. Houve ainda o projeto da Gravura – Cooperativa de Gravadores Portugueses, onde teve a sua primeira exposição individual com pintura, gravura e cerâmica, bem como a decoração da Loja das Meias, a convite do arquiteto Carlos Tojal, a intervenção no Hotel Ritz ou os magníficos painéis de cerâmica policromada na Pastelaria Mexicana, além do entusiasmo na pintura, atraído pelos nenúfares de Monet. Querubim Lapa é assim uma presença inconfundível que continua a marcar decisivamente a cultura e a arte pública entre nós. Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura