Memórias soltas do bairro do Poço do Padeiro

Volta e meia, quando nos encontramos em Portugal, um amigo meu e eu recordamos os doces anos da meninice, vividos no bairro do Poço do Padeiro, em Pangim, Goa, nas longínquas décadas de quarenta e cinquenta do século passado.

Aquele pequeno bairro, com uma população talvez inferior a duas dezenas de famílias católicas e duas ou três hindus, vivia de forma harmoniosa à volta do ilustre poço.
O belo poço era respeitado por todos os vizinhos, que o tratavam com doçura e carinho, por ser uma preciosa fonte de vida que jamais deixara de matar a sede dos necessitados, oferecendo gratuitamente a sua valiosa dádiva.

O poço, de configuração circular, sendo de maior diâmetro e mais profundo de todos os poços de Pangim, era orgulho dos habitantes do bairro, sobretudo, quando os numerosos caudais das nascentes das águas das monções, depois de se infiltrarem por veios profundos da terra, rasgavam as entranhas das suas paredes, prenhas de água da chuva em purificação, enchendo-o a ponto de quase transbordar.

Quando essas cheias coincidiam com a Festa de São João, o bairro ganhava colorido e notoriedade, porque atraía a rapaziada das redondezas, que vinha exibir os seus dotes de acrobacia, dando saltos mortais no poço ou fazendo piruetas e palhaçadas em suspensão para serem vivamente ovacionados.

Era um espectáculo deslumbrante, onde participávamos só com gritos e aplausos, perseguidos com forte desejo de nos atirarmos também para o poço mas, felizmente, o bom senso prevalecia, impedindo-nos de transformar a festa em tragédia.

Se naquela localidade apenas uma família tinha o aparelho de rádio e as crianças, por não possuírem quatro annas (um quarto de uma rupia), só comiam o baji-puri no café Tató quando acompanhadas dos pais, desenvolviam em contrapartida as capacidades criativas utilizando a incalculável riqueza da imaginação para se divertirem.

O bairro fervilhava de alegria, porque os numerosos catraios, detentores de plena liberdade de movimentos, animavam o espaço inventando entretenimentos e explorando o meio circundante.
Bem longe daquele poço e encoberto no alto do monte, localizado nas traseiras da Igreja Matriz de Pangim, o desactivado Farol do Alto dos Pilotos, que encimava o bairro, era um desafio que os petizes faziam gala de enfrentar.

Os garotos, alguns deles com menos de dez anos de idade, preferiam arriscar a vida e trepar pelas lianas, nas encostas deslizantes e inseguras, do que subir os intermináveis degraus da escadaria, situada bastante distante daquele poço.

O objectivo era ter a coragem e ousadia de sair de casa sozinho e chegar ao farol, por caminhos mais difíceis e em segredo, subindo depois as dezenas de escadas enferrujadas e ficar de pé, lá no topo, proclamando bem alto: já não sou criança.

Com frequência, nos dias de semana, ao cair da tarde, a vida agitava-se ainda mais, pois o número de jovens aumentava, por coincidir com o fim das explicações dadas pela professora Lina.
Começava então a louca correria pela escadaria abaixo, a partir da casa da explicadora até ao campo de futebol improvisado, que não passava do espaço mais largo da rua.

Uns descalços, outros com sapatilhas, tudo faziam para introduzir a bola, feita de trapos enrolados em meia velha, na baliza adversária, demarcada com duas pedras mais altas. Quando alguém se feria no dedo do pé, atava-se o dedo com um pano e continuava-se a jogar.

Para haver equilíbrio nas equipas, escolhiam-se os parceiros da seguinte maneira: dois jogadores ficavam a uma certa distância e depois avançavam um para o outro, colocando, alternadamente, um pé a seguir ao outro até se aproximarem. Aquele que tivesse a sorte de assentar o pé em cima do adversário escolhia o "Cristiano Ronaldo" do grupo. O outro tinha de contentar-se com o segundo melhor futebolista, e assim por diante até a escolha do mais pequeno, em geral, para guarda-redes.
O mais curioso é que os pássaros e as gralhas surgiam a saltitar de galho em galho, como se desejassem observar os movimentos dos jogadores, e os milhafres circulavam no firmamento, soltando de vez em quando o seu grito característico que até hoje nos soa nos ouvidos.

Praticavam-se também outras actividades lúdicas, designadamente, picmand (com castanhas de caju), folé (com dois paus de dimensões diferentes), ring e, às vezes, recriavam-se cenas de filmes, com paus compridos a simular espadas, ou a ponta do dedo indicador a fazer de pistola de Roy Rogers, o idolatrado actor cowboy, gritando hands up!

Quando o calor apertava e os pais descansavam, dois ou três garotos optavam por fazer um rápido jogo de goddés (berlindes).

Como só uma única casa tinha mesa de ténis e os candidatos desejosos de jogar chegavam a uma dezena, optava-se por rodar em fila à volta da mesa, tendo cada jogador uma única oportunidade para colocar a bola do lado oposto da rede. E se alguém eliminava um dos adversários mais temidos, desviando a bola de forma irrecuperável por esta acertar na quina da mesa, a gritaria triunfal tornava-se ensurdecedora ecoando pela rua.

Nos divertimentos, alinhava-se também com os vizinhos do bairro, em especial, em duas ocasiões: nas corridas nocturnas, organizadas pelos rapazes mais velhos, e no carnaval, com as famosas cocotadas, que eram combates entre jovens de um bairro contra os seus pares de outro bairro, onde se atiravam cocotes, ou seja, cartuchos de papel repletos de terra macia e cal. Havia combatentes que se apresentavam, cheios de orgulho, armados de escudo de papelão.

O tal amigo recordou-me o belo dia em que fomos ao cinema. Como os oito annas (meia rupia) acumulados pelos dois só dava para um bilhete, um de nós assistiu à primeira parte do filme e o outro à segunda e a seguir contámos um ao outro aquilo que tínhamos visto.

Entusiasmados, deixámos passar o tempo e regressámos tarde à casa. O pai dele obrigou-o a despir-se e presenteou-o com uma monumental tareia com um ramo de goiabeira. Os seus gritos chegaram aos ouvidos da minha mãe que achou melhor fazer justiça salomónica fazendo-me também chorar.

Na calada da noite, havia quem, quebrando o respeitoso silêncio e pondo os adormecidos em sobressalto, com a ajuda de um foco de cabeça e um tiro certeiro de calibre doze matava dois ou mais enormes morcegos, que dormiam em segurança na árvore, e da sua carne fazia chacuti no dia seguinte.

O verde que nos envolvia não só embelezava como também fornecia a cura para algumas doenças. O banho de água quente proveniente da infusão das folhas verdes de ordoxó, retiradas de uma das árvores do nosso bairro, por ter quinino, era remédio santo para as febres altas provocadas pelo paludismo. Mas se o caso fosse mais sério apelava-se ao médico Caxinata Porobo Colvalcar, a residir um pouco para além da fronteira do nosso bairro, do lado oposto à Casa Lusitana que, nos momentos de maior aflição, era o nosso pronto-socorro de saúde.

Para terminar, apraz-me mencionar apenas quatro pessoas daquele bairro:

A aguadeira Helena que, com a frágil bilha de barro, atada a uma corda, sem nunca a quebrar, retirava a água do poço e distribuía pelos vizinhos. Mesmo quando foi introduzido um chafariz público, em 1954, ela manteve-se fiel aos seus métodos; o alfaiate mestre Menino, especialista em camisas e fatos. Hoje a sua casa está abandonada. A famosa Dona Joaquina, confeccionadora do delicioso miscut de manga que dava fama ao bairro; e o "Peténce", cujo nome próprio me dispenso de citar, por só ser conhecido entre amigos da juventude por esta alcunha. Ficou com este epíteto por ter imitado o som que fazia a máquina, onde o seu pai trabalhava: peténce, peténce, peténce!

Historiador
(Artigo originalmente publicado n"O Heraldo de Goa)

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