Marcelo foi a Vinhais - é essa a diferença

Ir num sábado de verão a Vinhais, para o funeral de dois jovens bombeiros vítimas de um acidente ao acorrerem a um incêndio, é um gesto de generosidade e humanismo. É sempre possível o Presidente da República fazer-se representar, mas não o fez - Eduardo Cabrita, por exemplo, enviou a secretária de Estado. A questão dos incêndios só é comprovadamente sentida como uma constante tragédia nacional em dias assim: nestes pequenos/grandes casos do quotidiano. Porque estes bombeiros não foram os primeiros nem serão os últimos vítimas dos fogos ateados ou de uma natureza explorada ao limite e cujo descontrolo nos deixa à mercê de todos os riscos. Marcelo mostra que está ao lado deles e mantém a pressão junto do Governo para que a floresta seja um tema de "alerta máximo".

Aliás, a detenção de um suspeito, na última semana, pela Polícia Judiciária (PJ), abre finalmente uma esperança sobre os métodos e interesses de quem desencadeia os fogos. O engenheiro eletrotécnico, colocado em prisão preventiva, fazia deflagrar os incêndios à distância - com uma antecipação que poderia ir até 11 dias, de forma a não ser visto no local nem deixar qualquer rasto prévio. Ou seja, já não estamos na habitual conversa sobre pirómanos iletrados. Isto é sofisticação tecnológica. A PJ conseguiu também o acesso aos seus movimentos bancários, o que pode ajudar a compreender quem são os interessados nos gigantescos incêndios da zona Centro do país.

É justo dizer-se que não só temos uma boa investigação (ao fim de décadas de inimputabilidade) como o combate no terreno parece mais bem coordenado. Tiago Martins, o líder nomeado pelo Governo para a unidade-missão dos Fogos Florestais, não só andou a vida inteira na floresta, como se doutorou sobre o tema. Dificilmente haveria alguém melhor para o desafio. Os portugueses adoram o vice-almirante Gouveia e Melo, mas fariam igualmente bem se dedicassem o mesmo agradecimento a Tiago Martins - e obviamente aos batalhões de bombeiros.

Felizmente, este ano (com a ajuda do tempo mais frio) temos escapado. Mas agosto e setembro são os meses críticos pelas temperaturas elevadas e terrenos mais secos. E como vale mais tarde que nunca, os milhões da Europa vão chegar às "Áreas Integradas de Gestão da Paisagem", uma última esperança para evitar-se que as alterações climáticas possam devastar o que ainda resta da floresta do país (vê-se como é difícil na Sibéria ou Califórnia, atualmente). O ministro do Ambiente pronunciou esta semana a palavra mágica, tantas vezes exigida, para mudar o xadrez da paisagem: "mosaico". Ou seja, mais árvores autóctones resistentes ao fogo, mais agricultura a entremear a floresta, menos monocultura em hectares a perder de vista (as autoestradas do fogo).

Para as medidas serem coerentes, falta ainda o imposto que faça recair uma parte do custo do combate aos incêndios também nas empresas de grande rentabilidade na floresta. Não faz sentido que o Orçamento de Estado fique sozinho nesta batalha, que se andem a julgar bombeiros por catástrofes de dimensões como as de Pedrógão, ou que se chamem corruptos os bombeiros que usam a mais senhas de refeição (de oito euros...) em pleno teatro de operações. A contribuição das grandes produtoras nacionais de papel e madeiras, numa causa tão importante, continua adiada porquê? A verdade é que o Parlamento ignora a autorização legislativa que ele próprio criou. É um caso bizarro: o imposto sobre a indústria da floresta é afinal o único que ninguém quer cobrar.

Jornalista

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