Mais noção na política, precisa-se

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Pelo menos uma vez por dia um político de grande visibilidade, na sua ânsia de corresponder às permanentes solicitações da comunicação social e de não defraudar os seus eleitores ou apoiantes, diz uma qualquer asneira que contribui para o desgaste que a atividade política tem sofrido.

Esta semana, depois de um êxito da Polícia Judiciária na captura de um foragido de colarinho branco, que estamos certos terá dado muito trabalho de investigação e de diplomacia, Rui Rio, candidato a Primeiro-ministro, não só desvalorizou o trabalho efetuado como acusou o Diretor Nacional da PJ de foguetório.

Rui Rio refere que foi a polícia sul africana que deteve Rendeiro. Foi... mas porque o fez? Que se conheça, Rendeiro não terá cometido crimes na África do Sul. Também não era suposto que a PJ pudesse atuar na África do Sul e prender por mão própria o foragido. Será então despropositada, descabida e infeliz a observação de Rui Rio.

Sobre o entusiasmo do Diretor da PJ em aceder aos diversos convites da comunicação social para comentar o caso, parece-nos que o País agradece saber dos sucessos da polícia, nomeadamente quando se corrige um erro que a justiça proporcionou.

Na realidade, o que retiramos deste episódio de um candidato a líder do País é a falta de senso que comete muitas vezes os políticos, levando-os a desvalorizar pessoas e instituições que, por força das circunstâncias ou das suas convicções ou do seu trabalho, servem o País em círculo contrário ao seu.

O trabalho político precisa de gente que o valorize, que eleve o nível do discurso, que cative os desacreditados e que contribua para reconhecer relevância da ação política. São muitos os políticos responsáveis pela galopante e progressiva abstenção que o País regista, já que a sua ação em muito contribui para o distanciamento das pessoas em relação à atividade política e aos partidos. Há cada vez menos jovens a ligarem-se ao trabalho político e não é por falta de universidades de verão... é com certeza pelos comportamentos de muitos dos que, devendo servir de referência, de exemplo e até de ídolos, tudo fazem para proporcionar o oposto.

A minha geração e a de Rui Rio cresceu a querer ingressar na política por se rever em grandes senhores e senhoras da política. Aqueles de quem nos sentíamos próximos e os de quem nos sentíamos mais distantes mas, sem dúvida, uma geração de senhores. Já os nossos filhos, apesar de terem muitos que podem admirar, têm outros tantos que lhes transmitem da política uma imagem de foguetório.

Apesar de tudo, há uma maioria que, na maior parte do tempo, pela sua atuação, pela sua discrição, pela forma como defende as suas convicções, transmite da política a ideia de uma atividade nobre e de homens e mulheres de valor. Cruzo-me permanentemente com governantes, parlamentares e autarcas com grande valor, com saber estar e sem a necessidade de falar todos os dias e a todas as horas, o que lhes confere serenidade e valor. São estes que trarão as gerações futuras para a política. Não os que diariamente se dedicam a falar para aparecer.


Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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