É mais fácil os ex-monarcas regressarem do que as monarquias

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Os tempos do último xá podem ser hoje recordados pelos manifestantes, dentro e fora do Irão, como de modernização da sociedade e de laicismo, mas também foram tempos de repressão, com a polícia secreta SAVAK a ser famosa pelo terror que causava. O próprio fim abrupto da monarquia em 1979, com o triunfo dos defensores da República Islâmica, mostrou como a popularidade do xá era muito relativa, e os apelos atuais para o regresso do seu filho, Reza Pahlavi, mostram sobretudo o descrédito do regime dos ayatollahs fundado por Khomeini e desde 1989 encabeçado por Ali Khamenei.

Raros são os casos de monarquias derrubadas e depois reinstauradas, e não falo da Inglaterra do século XVII nem da França que andou a mudar de um regime para o outro durante quase um século até em 1870 se fixar como uma república. Falo sim a partir do século XX, que viu desaparecer as dinastias imperiais chinesa, russa, turca e alemã e tantas outras famílias reais. Espanha é mesmo um caso muito especial, pois o general Francisco Franco derrotou os republicanos na guerra civil de 1936-1939, manteve-se generalíssimo de uma monarquia restaurada por si mas sem rei e só perto da morte escolheu um príncipe Borbón como sucessor: Juan Carlos. Este, que o ditador fascista preferiu ao pai, D. Juan, filho do deposto Afonso XIII, mostrou-se adepto da transição para a democracia a partir de finais de 1975 e assim, provavelmente, salvou a renascida monarquia espanhola. Que dura até hoje, com Felipe VI.

Outra monarquia restabelecida foi a do Camboja, com o regresso de Norodom Sihanuk ao trono em 1993, depois de 23 anos afastado (com uma intermitência como chefe do Estado), enquanto se sucediam um regime anticomunista, um regime comunista extremista e um regime comunista mais moderado, tudo no âmbito da Guerra Fria e depois no contexto da rivalidade sino-soviética. Atenção que o próprio Sihanuk foi politicamente uma personalidade muito complexa, pois chegou a ser por vontade própria primeiro-ministro e também a usar o título de Chefe do Estado em vez do de rei, num Camboja em permanente agitação política. Quando morreu, já depois de abdicar para o filho, era “rei-pai”.

Interessante é o caso do Afeganistão a seguir à queda do regime talibã, em finais de 2001, pois o velho rei Mohammed Zahir Shah, que governara entre 1933 e 1973, regressou ao país mas renunciou à restauração da monarquia, dizendo simplesmente estar disposto a servir como fosse preciso, apesar de octogenário. Morreu em 2007, respeitado como “pai da nação”, e já não assistiu ao regresso dos talibãs ao poder, um emirado islâmico que derrubou a república em 2021 e tem à frente um “supremo líder”.

Talvez a situação que possa assemelhar-se mais aos planos de Reza Pahlavi, que vive nos Estados Unidos, seja o que aconteceu na Bulgária após a queda do regime comunista, no início da década de 1990. Simeão, rei da Bulgária na infância até ser afastado em 1946, manteve-se sempre ligado aos meios oposicionistas que contestavam no exílio a influência soviética no país. Ao regressar, criou um movimento politico e conseguiu ser eleito primeiro-ministro em 2001, numa época em que depois dos sobressaltos do pós-comunismo, a Bulgária já se preparava para aderir tanto à NATO como à União Europeia. A república nunca foi posta em causa.

No Irão, onde o regime reprimiu com extrema dureza os protestos dos últimos dias (mais de três mil mortos, calcula a HRANA, baseada nos Estados Unidos), a incerteza ainda é total sobre o futuro político do país. Há até a ameaça dos Estados Unidos de bombardearem em retaliação contra a repressão brutal contra os manifestantes que depressa de palavras de ordem contra a crise económica passaram a gritar contra Khamenei e alguns até a favor de Reza Pahlavi. O filho do último xá é uma voz a ter em conta numa eventual transição, mas está longe de ser consensual entre os meios oposicionistas, e é improvável que, se as fações moderadas do regime aceitarem fazer mudanças, mesmo que volte ao país, possa vir a ter um papel de liderança.

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