Mais e melhor mediação em tempos de conflitos

O filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos pensadores mais brilhantes do século XX. Foi igualmente dos mais progressistas do seu tempo, dos primeiros a bater-se pela instituição de um rendimento mínimo universal ou pela descriminalização das relações homossexuais. Analista político profundo, sublinhou, em 1950, ao receber o Prémio Nobel da Literatura, que "o amor pelo poder é, na verdade, o impulso mais forte nas vidas dos homens importantes". Acrescentou que muitos líderes não se importam de empobrecer - e de afundar a nação - se com isso conseguirem levar os seus rivais à ruína. Assim acontece ainda em certas partes do globo.

Foi essa paixão cega pelo poder, um tema central na obra de Russell, que serviu de ponto de partida à minha intervenção de ontem sobre a mediação de conflitos. Tratava-se da participação, por videoconferência, num colóquio do US Institute of Peace, uma organização independente baseada em Washington dedicada à diplomacia paralela e às negociações políticas. O desafio era identificar novas maneiras de abordar a resolução de crises nacionais, para serem partilhadas com as Nações Unidas e outros parceiros ativos nesta área da política internacional.

A intervenção política, em qualquer sociedade, exige um conhecimento apurado do contexto e das relações de poder. É preciso avaliar a força relativa dos principais líderes, no que assenta o seu poder e quais são as suas vulnerabilidades.

Nas sociedades democráticas, essa análise é mais fácil de fazer, mesmo tendo em conta a opacidade de certas agremiações secretas, os grupos de pressão e manipulação das redes sociais. Eleições realizam-se regularmente, existem estruturas partidárias visíveis e uma comunicação social ativa. Aí a credibilidade constrói-se com base na legitimidade eleitoral combinada com a projeção de uma imagem pública positiva.

Nos países onde o abuso da força é a fonte e o instrumento da autoridade, a questão é mais complicada. O sistema aparente, institucional, é muitas vezes enganador. O que conta é a teia informal e as suas hierarquias. O verdadeiro poder está ligado às chefias tradicionais, às pertenças étnicas, a redes religiosas, a superstições, ou ainda a organizações criminosas, no campo da droga ou do comércio ilegal de recursos naturais.

Assisti, ao longo da vida, a vários exemplos de poder informal. No Zimbabué, era mais fácil chegar à fala com Robert Mugabe através do motorista do representante das Nações Unidas do que passando pelo chefe do gabinete presidencial. O motorista era filho primogénito de um chefe tribal da etnia a que pertencia Mugabe. Na Senegâmbia, um pequeno número de marabus tinha mais influência política, a nível regional e nacional, do que a maioria dos ministros dos diferentes governos.

A mediação de conflitos só funciona se se negociar com quem detém o poder. Os outros, ministros e que tais, são muitas vezes uns meros figurinos ou simples paus-mandados do chefe. Para se chegar a quem decide é preciso sair, muitas vezes, do sistema formal de governação.

Um outro aspeto crítico diz respeito à autoridade do mediador. A credibilidade em política resulta da combinação de quatro características primordiais: espírito de missão, realismo político, equilíbrio de opiniões e confiança em si próprio. Vários mediadores nomeados nos últimos anos pelas Nações Unidas têm mostrado não possuir esse conjunto de qualidades. Por tendência, Nova Iorque presta mais atenção aos jogos regionais, à obtenção de apoios políticos em certos quadrantes, no Conselho de Segurança ou junto de chefes de Estado influentes na região em causa, do que à experiência e à personalidade dos nomeados. Daqui resulta uma certa marginalização da ONU e um esbater da sua imagem. Durante o segundo mandato, António Guterres deverá empenhar-se na resolução desta debilidade. O reforço da capacidade de mediação deve ser uma das áreas prioritárias de um tempo que se advinha fértil em conflitos. Assim o clamam, diariamente, muitos milhões de pessoas vítimas de violências políticas ou à beira da ravina.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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