Magrebe: Pegasus cá, Pegasus lá!

O assunto da semana aqui mesmo, do outro lado do charco, trata-se de um Wikileaks magrebino, ainda mais tecnológico, complexo e ardiloso do que os de Assange e depois de Snowden. Este último, o de Snowden, até me remete mentalmente para o tempo em que nas televisões se andava a correr, de departamento em departamento, de cassete na mão. O software Pegasus, comercializado pela israelita NSO Group, apenas foi/é suave, porque não faz correr ninguém. Está no mercado desde 2017 e, no estado natureza em que ainda se encontram as "ciberactividades", quem quis comprou.

Entretanto, foi uma vez mais um conjunto de jornalistas (80), de 17 organizações ligadas à comunicação social de dez países, vulgo Consórcio Forbidden Stories, que revelou quem comprou e quem anda a monitorizar quem (haverá 50 mil telefones comprometidos em todo o planeta). Da parte que nos interessa, ficou a saber-se que os serviços marroquinos têm mais de 6 mil números de telefone argelinos infiltrados com este spyware, desde o topo do topo da pirâmide política e militar, até ao "simples" militante deste ou daquele partido. E, até aqui, tudo normal, no sentido em que o que espantaria era não se seguir as movimentações de um vizinho com quem se tem fronteira comum e um diferendo territorial com quase 50 anos.

Mas, o mal-estar argelino, que hoje olha para trás e percebe que enquanto estava a ser atacado do exterior, estava focado em perseguir-se a si próprio no transe eleitoral que preencheu 2019 e 2020, não é menor do que o mal-estar marroquino. E é aqui que o assunto se torna ainda mais complexo e ardiloso, já que esta investigação do Forbidden Stories revela que os serviços marroquinos também monitorizavam o telemóvel do seu próprio rei e, suspeita-se, cautelosamente, o do aliado presidente Macron. Este caso continua, para já, no nevoeiro necessário do pingue-pongue das negações e contraprovas, pelo que não é prudente para já tirar conclusões.

A resposta virá através das reformas a aplicar no sector securitário nestes países e das cabeças que rolarão em consequência do mesmo, e o Verão será quente!

De uma outra perspectiva, a pergunta que se impõe é, será a espionagem um casus belli? Não creio, porque todos o fazem, tendo os antecedentes Assange/Snowden provado que entre os próprios aliados é impossível estar imune aos cuidados e prioridades alheios. Importante é que isso não venha a público, mas, mesmo que assim aconteça, a actividade não será suspensa, mas sim reciclada por outros meios, provavelmente mais rudimentares, porque em último caso o que continua a mandar são as razões de Estado.

O debate presente, no sentido da regulamentação deste sector orwelliano da "indústria da vigilância" passa pela implementação de uma moratória global sobre exportação, venda, transferência e uso de equipamentos de vigilância, até que uma estrutura regulatória robusta e em conformidade com os direitos humanos assuma de forma eficaz a monitorização do sector. No entanto, no jogo de espelhos da informação e contra-informação, indica a lógica que haverá sempre uma brecha que colocará em causa o dito popular que diz ser a prostituição a profissão mais antiga do mundo!

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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