Lula, social-democrata

Quando, depois de três derrotas, Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002, presidente do Brasil, eu disse a um velho amigo, que participara na luta contra a ditadura militar imposta em 1964 e que, por isso, estava eufórico com o acontecimento, que o líder do PT não tinha sido eleito para "fazer a Revolução" (socialista), mas para tentar civilizar e modernizar o capitalismo brasileiro, criando no país um estado social. Isso já seria um tremendo avanço histórico.

E foi o que aconteceu nos dois governos presididos por Lula. O êxito da luta contra a fome, a ascensão dos grupos sociais mais baixos, o início do combate ao racismo estrutural - que é, talvez, a maior iniquidade da sociedade brasileira -, os massivos investimentos em saúde pública, educação e pesquisa, apenas para dar esses exemplos, falam por si. Não espanta, portanto, que ele tenha saído do governo com mais de 80% de popularidade.

Tudo isso foi feito não apenas num quadro perfeitamente democrático, de plenas liberdades políticas, mas também dentro dos marcos do capitalismo. Recomendo a todos a leitura de um artigo do renomado economista brasileiro Delfim Netto, que está longe de poder ser considerado um petista, publicado no jornal Folha de S. Paulo no passado dia 16 de março, no qual o autor recorda que, durante a governação de Lula, "não houve rutura com as políticas macroeconómicas fundamentais".

Quanto aos programas sociais, muitas vezes menorizados pelos observadores mais dogmáticos, Delfim Netto comentou que, por exemplo, o Bolsa Família foi "um programa absolutamente extraordinário, de custo baixíssimo pelo efeito que tem e que possui condicionalidades importantes".

No fundo, e como ainda recentemente ele recordou, o que Lula fez foi incorporar ao mercado enormes contingentes das massas até então marginalizadas. Ele pode, portanto, ser criticado por setores mais à esquerda, que o acusam de ter transformado esses contingentes em consumidores e não em cidadãos. O que não faz sentido é o ódio que as classes dominantes brasileiras - que nunca ganharam tanto como durante a sua governação - continuam a alimentar em relação ao líder do PT.

A maka é que a burguesia brasileira, como classe, é burra, não percebendo que a ampliação do mercado, graças às políticas sociais do tipo daquelas defendidas por Lula, é boa para os negócios. O pecado original do Brasil é a mentalidade da "casa grande e senzala".

Em suma, Lula não é um radical e muito menos um comunista. Salvaguardadas as devidas nuances, ele pode ser classificado, à luz das medidas que defende e aplicou quando foi presidente, um social-democrata (de facto e não apenas de nome, como o PSDB brasileiro, cujo elitismo o levou a colocar o bolsonarismo no poder).

A questão das nuances é importante. Não pude, por isso, deixar de sorrir perante várias reações à resposta dada por Lula, em recente entrevista à televisão pública portuguesa, acerca da Venezuela. O que ele respondeu foi:
"A situação na Venezuela diz respeito aos venezuelanos", o que levou alguns a lamentar que o líder do PT não esteja "alinhado" com a social-democracia europeia. Se isso não é uma manifestação do velho complexo de superioridade ocidental, a terra deve ser plana.

Lula é um líder popular latino-americano. A América Latina
- explique-se aos distraídos - tem sofrido historicamente com a ideia (e a prática) de ser vista como o "quintal dos EUA". Que resposta esperavam tais espíritos bem pensantes?

Quanto à "social-democracia europeia", estamos a falar da que apoiou a invasão do Iraque, da que nega que o extermínio dos índios ou a escravatura foram atos de genocídios e da que considera que o antirracismo e os movimentos de extrema-direita são "equivalentes"?

Jornalista e escritor angolano, publicado em Portugal pela Caminho

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