O mapa projetado pela sondagem @Nowcast_EU, de 20 de janeiro de 2026, é um murro no estômago da estabilidade europeia. Nele, a Alemanha surge politicamente fraturada: um Leste quase totalmente "pintado" pelo azul da AfD e um empate técnico nacional (26%) entre os nacionalistas da AfD e o bloco conservador (CDU/CSU) do chanceler Friedrich Merz. Mais do que um estudo de opinião, este é o retrato de um país que parece ter perdido a bússola do progresso.O domínio da AfD na antiga RDA e em Berlim Leste é o sintoma final do fracasso das promessas de Helmut Kohl, o histórico líder da CDU e "Chanceler da Reunificação". Nos idos de 1990, por altura da Queda do Muro e da integração das duas Alemanhas, as suas "paisagens florescentes" (Blühende Landschaften) prometiam uma prosperidade rápida que nunca chegou a concretizar-se plenamente. Após décadas de políticas de crescimento anémicas sob o SPD e a era Merkel, a população sente-se, legitimamente, de "segunda categoria". Existe uma ironia trágica na facilidade com que estas populações parecem trocar um autoritarismo por outro, tal como em 1945 muitos soldados trocaram apenas o emblema na farda — passando do nazismo para o comunismo soviético quase de um dia para o outro. Quando o centro político falha em garantir dignidade e crescimento, os extremos tornam-se o refúgio dos esquecidos.. Mas o problema alemão não é apenas ideológico, é estrutural. É difícil de acreditar que, em 2026, a maior economia da Europa ainda viva na "era do fax" — utilizado por 77% das empresas por inesperada e trágica imposição burocrática. A Alemanha padece de um atraso digital gritante, ocupando o 14.º lugar na UE, onde mudar de casa ainda exige formulários em papel e presença física. A esta esclerose administrativa junta-se uma rigidez laboral sufocante e um setor automóvel em queda livre, com milhares de despedimentos previstos.No topo desta tempestade perfeita está o erro energético. O próprio chanceler Merz reconheceu recentemente o "grave erro estratégico" que foi o abandono do nuclear, que atirou o país para uma dependência suicida da Rússia. Hoje, a Alemanha é um importador líquido de eletricidade com custos industriais proibitivos, três vezes superiores aos dos EUA.O trabalho imediato de Merz é hercúleo. Ele tenta reformar um motor que está a gripar em plena marcha, com a AfD a morder-lhe os calcanhares em cinco eleições estaduais este ano. Contudo, esta não é apenas uma crise alemã. Se a locomotiva não recuperar a sua agilidade tecnológica e a sua clareza estratégica, a Europa — já espremida entre o protecionismo americano e o domínio chinês — resignar-se-á mesmo à irrelevância mundial. Estamos, de facto, bem tramados.