Lisboa tem espaço para o dobro dos turistas?

O tempo urge. Aí vêm elas. As retroescavadoras do novo aeroporto. Esta semana o presidente da Câmara de Lisboa deu o mote: "Aeroporto já. Nós precisamos de um aeroporto. Se ele é num sítio ou noutro, isso deve ser uma decisão técnica", afirmou num almoço promovido pelo lobby Associação da Hotelaria de Portugal. Dói sobretudo pensar-se que Carlos Moedas foi comissário europeu da Ciência e para ele os "estudos técnicos" são um pré-requisito. O aeroporto é "já". O ambiente da cidade e da região, a avifauna e o estuário, o risco de subida do nível da água, ou o impacto brutal da criação de uma cidade aeroportuária, bom, são formalidades "técnicas". Tipo: despachem lá isso. É para andar. Já.

Mas este grito de marcha para o aeroporto dado por Carlos Moedas é o mesmo de António Costa e até Marcelo Rebelo de Sousa, sucessivas vezes. Espanta, por isso, o facto de nem ele, nem o seu antecessor, nem o Governo, nem o Turismo de Portugal, nem a hotelaria, nos darem elementos estudados sobre isto: se passarmos a capacidade aeroportuária de Lisboa dos atuais 35 milhões para 50 milhões de passageiros, onde se mete mais gente nas zonas turísticas? As pessoas queixam-se do trânsito, ruído e da saturação demográfica. Acentuamos o problema até à xenofobia contra os turistas? Matamos a galinha dos ovos de ouro?

É para não destruir o turismo que vale a pena NÃO fazer um novo aeroporto em Lisboa. Em alternativa, a capacidade de reabilitar o aeroporto de Beja daria uma oportunidade de descoberta sobre o esse tesouro chamado Alentejo, a par de uma ligação ferroviária rápida à capital. O mesmo se passa com a base aérea de Monte Real, que potenciaria o turismo religioso de Fátima, e abriria uma nova equação para os eixos Leiria-Santarém, Castelo Branco-Guarda-Viseu e mais uma alternativa para Coimbra-Aveiro. A base aérea de Monte Real está a 1h de Lisboa e o Alfa passa ali ao lado. A pista de aterragem já existe. Dizer-se que os militares não têm alternativa a Monte Real é tão-só inacreditável.

Por fim: o aeroporto de Lisboa é irreformável? Não é. Moedas falou das "quatro horas de espera" para se passar do avião até à porta do aeroporto. Todos os que usamos a Portela sabemos que essa não é a regra (a ANA deveria mostrar os números). Mas nem sequer é essa a principal razão quanto ao mau funcionamento. As verdadeiras questões estão, de novo, no Expresso de sexta: desde logo a hesitação da concessionária Vinci, compreensível, sobre se vale a pena melhorar a Portela. Depois, os problemas do SEF nos picos de chegadas dos voos intercontinentais ou britânicos. A seguir, o adiamento da conclusão das obras de apoio à pista principal - é que aumentar o número de voos na Portela depende da mudança de local da torre de controlo, questão que o Estado não resolve dentro do próprio Estado. Por fim, também o Ministério das Infraestruturas não se consegue entender com o Ministério da Defesa para tirar dali a base de Figo Maduro e gerar mais espaço para estacionamento.

Como é óbvio, a solução mais fácil e barata é arrasar o estuário do Tejo no Montijo ou gastar-se quase 10 mil milhões só no aeroporto de Alcochete (fora os acessos, ferrovia, etc.). Só que há que duplicar Lisboa em altura para isto ter sentido. Muitos filmes futuristas mostram como podem ser essas cidades totalmente saturadas, num ecossistema destruído e a caminho da putrefação. Se alinharmos na prioridade ao betão, o cavaquismo/socratismo que tanto amaldiçoamos com os seus erros estratégicos, repete-se agora. Com as nossas palmas "progressistas".

Jornalista

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