Lançado ao mar com garrafas de plástico para flutuar

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Um rapaz migrante amarrou garrafas de plástico ao corpo para flutuar até Ceuta. Falamos de um jovem que se lançou (ou foi lançado) ao mar, em desespero absoluto e para quem ficar onde vive equivale a morrer. Ir para outro local também pode significar morrer. Ou não.

Não pretendo aqui debater questões políticas ou económicas associadas à situação que se vive em Ceuta, mas tão-somente as crises humanas, a guerra e os fluxos migratórios aos olhos das crianças. Como vive (ou sobrevive) uma criança num contexto desta natureza? Que impacto têm estas vivências no seu bem-estar? Será que alguma vez poderão recuperar e prosseguir a sua vida ?

A saúde física e psicológica de uma criança depende da satisfação de todas as suas necessidades, desde as mais básicas às afetivas, passando ainda pelas cognitivas e sociais. Uma criança precisa de comida, de um teto e aquecimento, mas também, e não menos importante, de carinho, estimulação e contacto social. A sua saúde física e psicológica depende ainda de sentimentos de segurança e previsibilidade, apenas possíveis quando existem vínculos seguros num meio ambiente que é sentido como protetor.

Em contexto de guerra, fome e migração, as crianças são privadas de tudo isto. Todas as suas necessidades ficam por satisfazer e o mundo e o futuro passam a ser sentidos como perigosos, ameaçadores e não protetores. Cresce-se com medo, insegurança, ansiedade e tristeza.

Se aprendem a sobreviver nestes contextos tão adversos? Sim, aprendem. O desejo de sobrevivência fala mais alto e até sorriem para as câmaras, quando os jornalistas os entrevistam. Apesar de dormirem no chão frio, de não terem comida nem consolo, sorriem, como quem diz, ainda existe uma réstia de esperança.

Mas não nos deixemos enganar por estes sorrisos, tantas vezes vazios e despidos de verdadeiras emoções positivas. São sorrisos em rostos e corações embotados, fechados e cheios de medo, que tentam proteger-se de alguma forma.

É assim o trauma. Contrariamente ao que possa pensar-se, não se manifesta sempre de uma forma efusiva, com gritos e choros. É tantas vezes silencioso e invisível aos olhos mais desatentos.

Mascara-se de sorrisos e de um aparente alheamento, e quem o vive aprende a distanciar-se, a fazer de conta que se é outro alguém, que se vive noutro corpo ou noutra realidade. São mecanismos de defesa que permitem um processo de acomodação à situação adversa, por mais paradoxal que isto possa parecer.

Aquele jovem amarrado a garrafas de plástico flutuou sem se afogar, é verdade. A sua sobrevivência física foi assegurada.

Questionamo-nos agora sobre a sua sobrevivência psíquica. Porque as memórias traumáticas não se apagam com uma qualquer borracha mágica, persistem e causam um sofrimento atroz. Estas crianças e jovens precisam de proteção e segurança para poderem sobreviver dentro deles mesmos.

Mas quem lhes dá este colo?

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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