‘Kaputt’ Alemanha, ‘kaputt’ Europa

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Wolfgang Munchau, um conhecido escritor e jornalista, cronista do Financial Times e do New Statesman, é um reputado europeísta que tem a virtude de ser lúcido, crítico e independente em relação à União Europeia. E além de não ter medo de reconhecer os males e limites da Europa, também não tem medo de reconhecer os seus próprios erros e enganos. Fê-lo em relação ao Euro: começou por apoiar a moeda única, mas depois do alargamento da União arrependeu-se, prevendo que a UE iria “empalidecer e possivelmente transformar-se num fantasma”

Em Novembro de 2024 Munchau publicou Kaputt, um diagnóstico muito pessimista sobre a sua pátria, a Alemanha. A Alemanha do “milagre económico” estava já bem longe, até porque tinham mudado as condições de fundo em que aparecera. O milagre fora construído com base na exportação de manufacturas industriais de qualidade, principalmente automóveis e máquinas.

Uma das condições deste capitalismo industrial, além dos profissionais imaginativos e criativos que o estimulavam, era a energia abundante e barata. E o fornecedor dessa energia era a vizinha Rússia, da qual se tinham aproximado dois chanceleres de partidos diferentes, Gerhard Schröder, do SPD, e Angela Merkel, da CDU.

Confiante na boa relação com Putin e na vaga de medo nuclear que sucedeu à catástrofe de Fukushima, Merkle fechou as instalações nucleares alemãs. Entretanto, a República Popular da China continuava a importar carros alemães, Audi e Volkswagen, para as novas classes médias.

Ora, quer o gás barato russo, quer o mercado automóvel chinês acabaram. Com a guerra e as sanções a Moscovo, o recurso à energia russa tornou-se impraticável. De resto, os gasodutos Nord Stream 1, concluído 2011, e Nord Stream 2, concluído em 2021, tinham sido sabotados em 2022 por agentes anónimos… Os alemães teriam de passar a comprar o gás muito mais caro aos americanos.

A guerra na Ucrânia acabara com a Ostpolitik de Berlim e os chineses tinham começado a fazer os seus próprios carros. A Alemanha, terra de inovação industrial, deixava de o ser.

Kaputt, que quer dizer “destruição”, era o título de um romance de Curzio Malaparte, contando, de forma ficcionada, os desastres da Segunda Guerra Mundial. Kaputt, ganz Kaputt - destruído, tudo destruído; ou estragado, tudo estragado.

A tese de Munchau em Kaputt é o fim do “milagre alemão” e o tempo de grandes dificuldades que se abre para a Alemanha. Hoje, as contraditórias atitudes de princípio de parte a parte bloqueiam a concretização urgente de um cessar-fogo na Ucrânia, e os europeus persistem na sabotagem discreta, mas permanente das tentativas da Administração Trump de forçar um acordo de paz.

As solenes afirmações de princípio de ambas as partes tornam muito difícil, senão impossível, uma Paz formalizada. Assim, na ausência de um Acordo, começa-se a falar de uma solução pragmática - uma zona desmilitarizada e uma cessação de fogo de parte a parte, sem que nenhum dos contendores reconheça formalmente a legitimidade do outro e, sobretudo, a legitimidade da renúncia ao território perdido ou conquistado.

Ou seja, um arranjo tipo Coreias, que é como quem diz, um regresso aos usos e costumes da Guerra Fria.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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