Juntos superamos, aprendemos e brilhamos

Numa sessão muito emotiva, foi recentemente apresentado um pequeno livro de grandes histórias de estudantes sírios em Portugal. Trata-se de uma ação que teve início em 2013, promovida pelo Presidente Jorge Sampaio que, com a sua inabalável tenacidade e dedicação, permitiu mudar a vida destes jovens e também beneficiar o país que os acolheu. O projeto assenta na ideia simples e complexa de lhes dar condições para prosseguirem estudos superiores, alguns tendo concluído o doutoramento e outros já estando integrados no mercado de trabalho. Enquanto contam o lado luminoso da sua história - um horizonte aberto pelo acesso às qualificações - quase esquecemos o sofrimento que está por detrás de cada um. O título do livro, A Minha Terra é Linda, é bem expressivo do que significa abandonar o seu país, deixar para trás as origens e até a família, fugir da guerra que se traduzia na impossibilidade de futuro, para mergulhar no desconhecido só por si também doloroso.

Segundo as Nações Unidas, há atualmente mais de 82 milhões de pessoas que fogem da violência, dos conflitos e das mudanças climáticas. Nem sequer a pandemia travou este fluxo de refugiados e pessoas deslocadas. Mas, ao contrário do que muitos dizem (pintando a ameaça de uma invasão), apenas uma pequena parte dos que fogem procuram abrigo na Europa ou nos países mais ricos: a grande maioria dos refugiados (cerca de 86%) são acolhidos por países próximos das zonas de crise, na sua maioria países de renda baixa ou média em África ou na América Latina. São os que menos têm que acolhem a maioria dos que tudo perderam.

Os conflitos violentos continuam a alastrar e com eles a fuga de populações ou a tentativa de salvar os mais jovens para que possam encontrar um futuro que lhes foi negado nos seus países. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas com trágicas consequências na segurança alimentar, têm igualmente provocado um aumento de deslocados em busca de condições mínimas de vida. Sabemos que esta mobilidade humana, seja de refugiados, deslocados ou migrantes económicos, continuará a ser uma tendência crescente. Também neste caso se torna necessário um pacto global para encontrar respostas que diminuam a pressão nos países de acolhimento e criem condições para a autossuficiência de refugiados e migrantes, apoiando ainda soluções que permitam melhorar as condições de vida nos países de origem.

A aposta na qualificação dos mais jovens é decerto uma das estratégias que pode mudar vidas de que são exemplo os estudantes sírios em Portugal. Para alcançar esse objetivo foi necessário coordenar esforços e criar o enquadramento para alcançarem os seus sonhos. Antes do mais, e além do medo, um refugiado sonha com uma vida melhor para si e para os seus. A narrativa das histórias destes jovens sírios, recolhidas por Helena Barroco, são um extraordinário exemplo de recomeços e, ao mesmo tempo, de profundo sentido de pertença. Muitos tornaram-se médicos, engenheiros, arquitetos, investigadores, muitos reconstruíram as suas vidas em Portugal sem nunca esquecer as origens. Podemos dizer que nos tornaram mais ricos, não só pelo que nos devolvem em conhecimento e contributo social, como pela visão do mundo que partilham. O Dia Mundial dos Refugiados, que se comemora a 20 de junho, teve este ano como lema "Juntos superamos, aprendemos e brilhamos", para recordar que a diversidade é uma riqueza maior e o outro pode ser o espelho do nosso devir.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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