Jubileu dos 140 anos de relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal

E m 10 de março de 1882, o rei da Sérvia Milan Obrenović enviou uma carta a D. Luís I, rei de Portugal e dos Algarves, ano em que o anteriormente principado da Sérvia passou a reino independente, onde se pode ler: "Desejo assegurar-vos que empenharei todos os meus esforços para que as relações que hoje inauguramos e pelas quais me felicito sejam sempre impressas do sentimento de uma constante cordialidade."

Uns dias depois, Milan Obrenović envia a D. Luís I a mais alta condecoração sérvia: a Grã-Cruz da Ordem Real de Takovo.

D. Luís I responde cordialmente, enviando a Belgrado um diplomata de alto escalão, Fausto de Queirós Guedes, segundo-visconde de Valmor. O rei Milan Obrenović expressa o seu agradecimento a D. Luís I, numa carta de 14 de novembro de 1882: "Senhor mon Frère, o enviado de Vossa Majestade, o Senhor Visconde de Valmor, entregou-me as cartas que Vossa Majestade gentilmente me remeteu, bem como as condecorações de ambas as Ordens Militares de Cristo e de São Bento de Avis, as quais me concedeu de maneira deveras graciosa. Imensamente sensibilizado com este testemunho de amizade por parte de Vossa Majestade, venho expressar todo o meu agradecimento, assegurando a Vossa Majestade o elevado valor que atribuo a esta distinção, bem como a tudo o que possa constituir prova de sentimentos afetuosos de Vossa Majestade para comigo. Congratulo-me por poder aproveitar esta oportunidade para exprimir a Vossa Majestade os meus melhores votos de felicidade pessoal e de prosperidade da Vossa Casa e renovar os protestos da minha elevada estima e sincero afeto. Senhor mon Frère, do bon Frère de Vossa Majestade. Milan."

Embora, teoricamente, se possa supor que a data do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países tenha sido um pouco anterior (com troca de correspondência entre os dois chefes de Estado), formalmente, a asserção mais forte é a de 14 de novembro de 1882, quando o diplomata português, enquanto enviado especial de D. Luís I, entregou as cartas e as condecorações do monarca português ao rei sérvio.

Note-se que a continuidade das relações entre os dois países foi mantida mesmo após a mudança dinástica de 1903, quando os Karadjordjevics assumiram o trono sérvio, bem como depois de 1910, quando foi proclamada a República em Portugal, conforme atestam preciosos documentos de arquivo. Na Primeira Guerra Mundial, a Sérvia e Portugal estiveram do mesmo lado, enquanto potências aliadas.

Por ocasião do 135.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas, em 2017, o presidente da Sérvia, Tomislav Nikolić, esteve numa visita de Estado de dois dias a Portugal, reunindo-se com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do parlamento Ferro Rodrigues e o primeiro-ministro António Costa.

Na circunstância desse grande jubileu, os dois chefes de Estado trocaram altas condecorações, como outrora o rei Milan e D. Luís I o haviam feito. O chefe de Estado português concedeu ao congénere sérvio a Ordem do Infante D. Henrique, o Navegador, e o presidente sérvio atribuiu-lhe a Ordem da República da Sérvia em faixa.

Numa receção oferecida pelo primeiro-ministro português António Costa, o presidente da Sérvia afirmou que "135 anos de história obrigam-nos a construir relações bilaterais cada vez mais fortes".

Com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o presidente da Sérvia assinou um documento conferindo à Igreja Ortodoxa Sérvia o uso da Capela de Santo Cristo, em Belém, com base no direito constitucional e humano ao exercício da liberdade religiosa. Os membros da diáspora sérvia em Portugal têm agora, pela primeira vez na história, oportunidade de professar a sua fé cristã plenamente, pelo que estamos muito gratos aos portugueses.

Há uma série de similaridades entre a história portuguesa e a sérvia e também um grande número de semelhanças entre o povo sérvio e o português.

Portugal e a Sérvia passaram por todas as formas de poder do Estado e por todas as experiências históricas características das mais antigas nações europeias: houve condados (principado na Sérvia), depois reinos, impérios, depois monarquias parlamentares, depois repúblicas autocráticas e finalmente repúblicas parlamentares. Ambas são nações cristãs, contudo estiveram longamente sob ocupação muçulmana e lutaram pela libertação, maioritariamente por conta própria.

Ao contrário da maioria das monarquias europeias, as duas nações tinham as suas próprias dinastias autóctones, pelo que, no século XX, as dinastias sérvia e portuguesa viriam a unir-se, designadamente através do casamento do príncipe herdeiro sérvio Alexandre II (Karađorđević) com a princesa descendente da linhagem imperial do Brasil e real de Portugal Dona Maria da Glória Henriqueta Dolores de Orléans e Bragança, em 1972, resultando que os seus três filhos, Pedro, Filipe e Alexandre, são príncipes servo-portugueses.

Lisboa foi a única capital de um dos Estados membros da NATO que adotou uma declaração contra o bombardeamento de Belgrado e outras cidades sérvias, sobre as quais foram lançados tapetes de bombas, incluindo bombas de fragmentação, assim como mísseis de urânio empobrecido (armas nucleares, portanto); estes foram usados sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU, o que é, obviamente, uma violação do Direito Internacional. O então presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, estava de visita a Belgrado no momento do bombardeamento. A história não esquece.

Oficiais portugueses de alta patente, de majores a majores-generais, membros de forças internacionais da ONU, mas também da NATO, testemunharam de forma objetiva e autêntica (em artigos, entrevistas e livros publicados) sobre os conflitos na ex-Jugoslávia, como também na província sérvia do Kosovo e Metohija, contradizendo profundamente os falsos relatos dos media internacionais (especialmente a BBC e a CNN), de funcionários da NATO e das elites do poder de Estados ocidentais.

Esta compreensão e respeito mútuos entre os nossos dois povos não é acidental. Além das similaridades históricas, não podemos esquecer que ambos integraram o Império Romano durante séculos; que Portugal e a Sérvia estabeleceram relações diplomáticas quando existiam apenas outros nove países na Europa; que os dois países participaram ativamente no I Congresso da Federação Europeia, em 1909, em Roma, onde foram lançadas as bases ideológicas da moderna União Europeia, numa altura em que, além dos dois, havia apenas outros vinte Estados europeus.

Os nossos países foram aliados na Primeira Guerra Mundial. Não é irrelevante o facto de existir um clube de fado em todas as grandes cidades da Sérvia, que Mariza seja a cantora estrangeira mais popular e que os sérvios, salvo uma óbvia exceção, apoiem sempre Portugal nos jogos de futebol. Mais, a Sérvia é membro observador da CPLP.

É quase inacreditável que Luís de Camões tenha afirmado no canto IX, estância 95, da sua obra maior Os Lusíadas: "Quem quis sempre pôde", sublimando assim a coragem e as virtudes dos marinheiros portugueses, da mesma forma que o nosso lendário general sérvio, o duque Živojin Mišić, antes da famosa Batalha de Kolubara, na qual o exército sérvio, oito vezes mais fraco, derrotou impremeditavelmente o exército austro-húngaro, afirmou, laconicamente: "Quem ousa pode", com o mesmo significado profundo que as palavras escritas por Camões 342 anos antes. Como escreveria um dos maiores poetas sérvios, Petar Petrović Njegoš: "Que seja, então, tudo o que não pôde ser", porquanto os portugueses e os sérvios alcançaram o impossível nas suas longas histórias, dado que quiseram e ousaram!

Por conseguinte, o lema proposto para a comemoração do centésimo quadragésimo aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre a Sérvia e Portugal será: "Camões: Quem quis sempre pôde / Mišić: Quem ousa pode."

Embaixador da Sérvia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG