Jornais e livros: uma mesma melancolia

Se lermos hoje As Ilusões Perdidas de Balzac, surpreender-nos-á o quanto a distinção e o trânsito no meio literário parisiense nos princípios do século XIX dependia das relações cultivadas no meio jornalístico. A glória literária, aos olhos do protagonista e dos personagens deste romance, estava estreitamente ligada ao sucesso que o autor tivesse no meio da imprensa, pois fora desse caminho não havia êxito possível. Como o desiludido Lousteau explica ao arrivista Lucien de Rubempré, "a vida literária tem os seus bastidores; a plateia aplaude os sucessos, inesperados ou merecidos; os meios sempre hediondos, os comparsas apinocados, as claques e os subalternos, eis o que encerram os bastidores".

Nos finais do século XIX, em Portugal, é algo distinta, mas não menos disfórica, a visão que Eça de Queirós, na Capital e depois nos Maias, exprime sobre a relação entre escritores e jornalistas. O jornalista Melchior, incapaz de escrever uma recensão crítica ao livro do poeta Craveiro, pede ajuda ao Ega, que lhe dispara um discurso fulminante, no qual conclui que "o que diz, através do silêncio dos jornais, o coro dos jornalistas" é, em suma, isto: "Nós não sabemos, não podemos já falar de uma obra de arte ou de uma obra de história, deste belo livro de versos ou deste belo livro de viagens. Não temos nem frases nem ideias. Não somos talvez cretinos - mas estamos cretinizados".

E o Melchior acaba por desistir da recensão, confessando: "Não é lá pelo livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e demais a mais, pertence cá ao partido!".

A meio do século XX em que eu nasci ("o mundo de ontem"), todos os jornais tinham páginas e suplementos culturais, nos quais a literatura dominava e onde as querelas entre os literatos ocupavam a atenção excitada de quem se interessava pelas coisas da cultura. Tínhamos a noção, leitores do Diário de Notícias como leitores do Diário de Lisboa, fiéis do Comércio do Porto como do Primeiro de Janeiro, que muito se jogava então na literatura. Até o debate político, proibido de se exprimir abertamente, pedia emprestado o manto literário para vir a público, neorealista para os comunistas, presencista ou independente para os democratas não comunistas, e as polémicas entre escritores ferviam, negado que nos era pela censura o debate político aberto.

Quando declinou de vez esse papel da literatura, agora que o seu acompanhamento pelos jornais depende do pouco espaço que lhes possa sobrar para falar de livros?

Certamente, o crescente relevo cultural do cinema, das artes performativas e da música pop veio ocupar um espaço, antes talvez injustamente preenchido em excesso por recensões de poesia, de ensaios e de obras portuguesas, deixando até muitas vezes de lado a riqueza de obras clássicas estrangeiras novamente traduzidas em português.

A literatura aprendeu assim com os jornais que era mortal, ao mesmo tempo que os jornais iam aprendendo com o digital a mesma dura lição. Os jornais olhavam para além da literatura, a literatura habituava-se a passar sem os jornais.

E, contudo, há leitores. Eles continuam a ler e a comprar livros. Eles interagem com os livros como todas as gerações fizeram, mesmo que hoje leiam no kindle ou no computador. Eles procuram os novos livros e se calhar (quem sabe, há gente para tudo!) não precisam de mais informação sobre o Moby Dick ou a Ana Karenina, reeditados pela enésima vez em Portugal. Mas a verdade é que os leitores formam hoje, aos olhos da edição de massas, não um público, mas um mercado, não um sujeito que reage e sinaliza, mas um inerte objeto de marketing.

Os jornais são igualmente vítimas deste declínio do literário e deste esquecimento da escrita, paradoxalmente acompanhado e endossado por aqueles mesmos que mais devem aos livros.

A mesma melancolia nos invade, leitores de jornais e leitores de livros. E se os jornais falam cada vez menos dos livros, podem os leitores dos livros sorrir para os jornais e dizer-lhes: De te fabula narratur! Temos todos a mesma história e caminhamos todos para o mesmo fim!


Diplomata e escritor

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