Jorge Sampaio. Uma pequena estória, uma grande visão

No início da década de 90 do século passado, o Grupo Pestana adquiriu o Palácio Vale- Flor, em Lisboa, com a intenção de o transformar em hotel. Além da adaptação do Palácio em si, a intenção era levar a efeito no jardim a construção de quartos e suites, de acordo com um projecto do Arquitecto Manuel Tainha. Apesar do parecer favorável do então Instituto Português do Património Cultural, a Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo emitiu parecer desfavorável ao projecto, que veio a ser reformulado. Um ponto crítico dizia respeito aos jardins do palácio. Havia que manter não só a traça romântica do jardim, como as suas árvores e arbustos. Que alegadamente o projecto desrespeitava.
Ao tempo, como Subdirectora geral do Turismo, lembro-me de, juntamente com o Director-Geral, visitar esse jardim, acompanhados por técnicos do Laboratório de Patologia Vegetal - denominação expressiva, esta - do Instituto Superior de Agronomia, creio que por indicação sábia do Arquitecto Ribeiro Telles, com quem se vinha falando sobre a difícil situação. Fui calçada de botas cardadas, tal como os demais, penso. O estado sanitário das poucas arvores e arbustos que resistiam de pé metia dó. E o traçado do jardim já nada tinha de romântico, de há tanto tempo abandonado.

Ao tempo o Dr Jorge Sampaio era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e estava em vigor o Plano Estratégico de Lisboa e fechados os Estudos Prévios do que viria a ser o PDM de 1994. Havia uma discussão brava, que metia também a Secretaria de Estado da Cultura e um núcleo de moradores do Alto de Santo Amaro. Que se opunham às novas construções e intervenções no jardim, sobre o qual tinham soberba vista.

Perdoe-se-me a minha imprecisão de dados e datas, mas o que retenho com grande admiração foi a intervenção do Presidente da Câmara. Que me telefonou e me disse que iria ter comigo um dos seus assessores jurídicos, por sinal um jus-urbanista notável (e um amigo hoje), e pedia que entre os dois lhe preparássemos um despacho pois havia que "desencravar" a situação, por força da interpretação da norma do PDM respeitante, creio, aos jardins históricos. É que, disse então o Presidente da Câmara, não podemos deixar que aconteça ao Palácio Vale-Flor o que aconteceu ao Palácio Sotto Mayor (que tinha sofrido um grande incêndio nos anos 80 e permanecia ainda em lenta agonia)! Acrescentou que sabia que a decisão não era pacífica e unânime, mas era a sua visão de defesa do interesse público: o património é para ser preservado, sim, mas vivido, e sofrer as transformações e adaptações ao seu tempo. Ou morre. E com ele a Cidade.

E assim foi: preparámos dois Despachos, o do Presidente da Câmara e o do Director-Geral do Turismo. O primeiro, para lá de fundeado em sólidos argumentos jurídicos de interpretação do PDM, teve ainda a veia do próprio Presidente a inspirá-lo. E assim se desencravou o imbróglio, aprovando-se a intervenção e projecto de arquitectura e permitindo-se que mais tarde (já no final da década de 90) viesse a ser também aprovado o projecto de arranjos exteriores.

Para lá da minha grande admiração pela capacidade que o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa teve ao assumir os custos com uma decisão que sabia iria ser criticada, fica-me ainda uma nostalgia pelos tempos em que era possível agir, assumindo que a lei é coisa viva e a defesa do interesse público não é pintada a preto e branco.

Saudades.

(o Palácio Vale-Flor, hoje Pestana Palace Hotel, está classificado como Monumento Nacional por via do Decreto n.º 67/97, de 31 dezembro 1997)


CEO da AHP

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG