John McAfee (1945-2021). O hedonista insurreto

A maioria da humanidade vive atormentada ‒ ou, pelo menos, acompanhada ‒ pela incerteza em relação ao seu próprio fim. Todos temos encontro marcado com ele, mas poucos sabemos o formato, a data e a circunstância em que nos cruzaremos, por fim, com a inexistência. O cronómetro vai contando e o mistério é tão constante que se torna inconsciente: na inevitabilidade de os ponteiros pararem, todos ‒ ou quase todos ‒ deixamos de ouvi-los girar. John David McAfee, nascido nos Estados Unidos da América no último ano da Segunda Guerra, e defunto numa penitenciária espanhola há coisa de três dias, era uma exceção a essa regra. Tinha 75 anos.

Em finais de 2019, na sua conta no Twitter, McAfee revelava uma premonição acerca da sua própria morte. Já a braços com a justiça americana por evasão fiscal ("Os impostos são um crime", preconizava ele), o programador e empresário escreveu na rede social: "Estou a receber mensagens subtis de agentes americanos, dando a entender: 'Vamos atrás de ti, McAfee! Vais matar-te!' McAfee, encontrado nesta semana sem vida na sua cela na Catalunha, troçava na altura da possibilidade. "Pelo sim, pelo não, fiz uma tatuagem. Se me matar, saibam que não fui eu. Mataram-me. É verem o meu braço direito", brincou, anexando uma fotografia da tatuagem recém-pintada, com letras clássicas e a palavra wacked, isto é, limpo. O advogado de McAfee veio já declarar-se em choque com a morte do seu cliente, clamando que não dera o mais remoto sinal de despedida a si ou à família.

Pelo sim pelo não, um tribunal espanhol já anunciou uma investigação ao falecimento de McAfee bem além do aviso que este deixou no braço. Uma autópsia será realizada nas próximas duas semanas, aferindo as causas da morte e fazendo por colocar termo às teorias da conspiração que encheram a internet nas últimas horas. McAfee, cujo pai perdera a vida para o suicídio, dissera recentemente acreditar que Jeff Epstein fora assassinado na prisão.

Edward Snowden, outro norte-americano com justificadas alergias ao conceito de extradição, reagiu à morte de McAfee subscrevendo a teoria mas questionando o motivo. "A Europa não deve extraditar aqueles que estão acusados de crimes não violentos por um sistema judicial tão injusto e um sistema prisional tão cruel que as pessoas preferem morrer a estarem sujeitas a ele. O Julian Assange pode ser o próximo", aponta o ex-agente da CIA, atualmente a viver na Federação Russa.

Em vida tão controverso quanto na morte, John McAfee era um autêntico excêntrico. Génio precoce, quadro da NASA, empreendedor informático, criador do homónimo e icónico programa de antivírus para computadores, candidato presidencial e pontual suspeito de assassinato, a sua ideologia coincidia com o seu modo de estar: era um libertário. Na descrição que a sua conta oficial apresenta, assumia-se como "iconoclasta", "adorador de mulheres, aventuras e mistérios" e fundador da empresa com o seu nome, em 1987. Tudo factual, verdade seja dita.

McAfee estava detido desde o verão passado, acusado de fuga ao fisco, fraude e lavagem de dinheiro relacionada com criptomoedas. Entre a década de 1980 e 90, foi o mais bem-sucedido empresário de cibersegurança no planeta, com cerca de metade das maiores empresas do mundo a utilizarem os seus softwares. Mais de 90% da sua fortuna então acumulada seria, mais tarde, perdida em investimento imobiliário e loucuras pessoais. Nunca se arrependeu.

Colunista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG