Joe Biden, o Médio Oriente e a coerência em política

Depois de dois dias passados em Israel e no Estado da Palestina, o presidente americano está hoje em Jeddah, na Arábia Saudita. Mesmo tendo lido o que Joe Biden escreveu no Washington Post de 9 de julho, para tentar justificar esta sua viagem, sou dos que não concordam com a oportunidade política deste périplo. Vejo-o como uma jogada de mero oportunismo.

No presente contexto de confrontação com a Rússia, a viagem enfraquece quem utiliza os argumentos do respeito pela lei internacional, a democracia e os direitos humanos. O Médio Oriente é uma ratoeira de problemas sem solução à vista. Um labirinto geopolítico, onde, entre outros, os EUA também andam perdidos. Na região, para além do que se sofre nos países visitados e na Palestina ocupada, temos ainda a violência desumana do regime sírio, com uma guerra fratricida que se arrasta desde 2011, a barbárie do conflito no Iémen, o caos no Líbano, a ameaça iraniana, a opressão sobre as populações curdas, o extremismo fundamentalista e as rivalidades mortais entre sunitas e xiitas. Trata-se de lidar com um paiol de pólvora, que vai explodindo segundo os jogos de interesses dos diferentes atores locais ou internacionais.

Uma visita que não traz qualquer tipo de resposta à questão palestiniana, ao obscurantismo e à crueldade do regime saudita, ou à contenção da ameaça iraniana, só pode ser notada pela negativa. Biden esteve em Israel a pensar nas eleições intercalares de novembro no seu país e para agradar a uma parte da sua base eleitoral doméstica. E está na Arábia Saudita para procurar aumentar a produção de petróleo, de modo a conter o preço do barril. Essa é igualmente uma preocupação eleitoral: o custo da gasolina, na altura de encher o depósito, é um forte argumento político nos EUA. Mas não vai ser fácil convencer os sauditas, que já adicionam por dia mais 400 mil barris, em comparação com o que faziam em fevereiro. Note-se, aliás, que a produção diária saudita é hoje equivalente à russa, ocupando ambos (quase ex aequo) a segunda posição mundial.

Israel não é comparável com a Arábia Saudita. Mas a violação sistemática dos direitos dos palestinianos é um dos argumentos mais fortes usados por quem acusa os EUA de utilizar um pau de dois bicos nas relações internacionais. A causa palestiniana tem sido ao longo de décadas uma das espinhas mais importantes atravessadas na garganta de quem fala da necessidade de respeitar a ordem internacional e os direitos dos povos oprimidos. Não se pode batalhar por isso no caso da Ucrânia e fechar os olhos, quando se trata do mesmo na Palestina.

A Arábia Saudita é um país de contradições. Moderno em matéria tecnológica, medieval no respeitante aos direitos das mulheres, dos trabalhadores imigrantes pobres ou no tratamento das oposições políticas. O príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, personifica bem essas contradições e a brutalidade do regime. Ficará na história por ter mandado assassinar e cortar em pedaços o jornalista opositor Jamal Khashoggi em 2018. Joe Biden dissera, durante a sua campanha eleitoral, que esse crime transformara a Arábia Saudita num Estado pária. Hoje, irá apertar a mão do mandante dos assassinos e discutir cooperação e petróleo. O príncipe sairá bem na fotografia, ainda mais arrogante que de costume. Já o presidente americano sairá mais vulnerável.

É altura de repetir que em política internacional não vale tudo. E de sublinhar, uma vez mais, que acreditar em princípios tem um custo. A narrativa tem de se tornar mais clara. A liderança política só será credível se for coerente. Passar o tempo a pensar nas próximas eleições, em manobras politiqueiras e em expedientes que variam conforme os interesses em jogo, pode levar à reeleição de presidentes, de primeiros-ministros e de secretários-gerais, mas não contribui para resolver os grandes problemas. As crises atuais, no Médio Oriente, no Leste da Europa, no Sri Lanka, no Paquistão ou em Myanmar, em certas partes de África ou da América Central, bem como no campo das alterações climáticas, da conservação da natureza ou da insegurança alimentar e da luta contra a pobreza, deviam ensinar-nos a ser verdadeiros, responsáveis e corajosos. Nestes tempos de grandes problemas, essa maneira de fazer política é o desafio maior.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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