Deixarei de encontrar nas manhãs de sábado o meu vizinho João, para dois dedos de conversa sobre os acontecimentos do momento. E tomo consciência dessa perda irremediável, que já sinto no fundo de mim. Quando a Maria Idalina ainda estava connosco havia entusiasmo. Depois, as marcas profundas da ausência foram-se acentuando rapidamente. Mas a argúcia, a inteligência e a sabedoria de João eram imperdíveis e são inesquecíveis. Desde que o conheci, há cinquenta anos, foi sempre uma constante referência. A exigência e o rigor eram confundidos por alguns com pessimismo, mas, na minha experiência, foi sempre útil essa firme capacidade crítica. Era o pessimismo da razão com o otimismo da ação, como nos ensinavam os clássicos. Foi das pessoas mais inteligentes e fascinantes que conheci. Muitos acusavam-no de ter hesitações, mas quem melhor o conhecia, sabia que essa característica era sinal de uma capacidade única para ver constantemente os diferentes lados dos problemas. Nos dez anos em que presidi à SEDES, graças também ao nosso querido e saudoso amigo Fernando Melo Antunes, contei com o seu apoio e conselho permanentes. Tinha sempre tempo não só para responder ao que se lhe pedia, mas também para dar ideias e propor novas iniciativas, considerando a luta contra a mediocridade e o favor do bem comum. Se não houvesse constante consciência crítica o cuidado do serviço público seria sempre incompleto..DestaquedestaqueA argúcia, a inteligência e a sabedoria de João [Salgueiro] eram imperdíveis e são inesquecíveis.Foi meu Ministro das Finanças quando tive funções nas negociações internacionais, em tempos sem telemóveis ou contactos digitais. No Luxemburgo ou em Washington o mandato de confiança era o que verdadeiramente valia, com o risco balizado pelas orientações gerais que recebíamos e cumpríamos com escrúpulo. Foram muitos milhares de quilómetros andados e muitos projetos de desenvolvimento para o País, num trabalho difícil, com a minha amiga Isabel Mota a tratar da substância, e o pobre jurista a cuidar da legalidade e da boa forma para os compromissos. Depois, muitos anos passados, quando estive no Ministério das Finanças foram preciosos e oportunos os seus alertas. Nunca a amizade perturbou a rigorosa análise dos acontecimentos e dos interesses, nunca os valores éticos deixaram de estar presentes, e aí o João era intransigente. O mesmo se passou na jurisdição de contas. E em cada dia que passou, a amizade fortaleceu-se, sem transigências. Era um patriota determinado. Das nossas últimas conversas retenho a defesa intransigente de que Portugal tem de apostar numa política de investimento produtivo para que seja possível aumentar a competitividade e elevar o ritmo de crescimento do País. O centro da política teria de estar no aumento do investimento produtivo, nacional, estrangeiro, público ou privado, em menos endividamento e em contas públicas equilibradas. Os casos de países com sucesso reconhecido não dependiam da sua dimensão ou do carácter periférico. Importaria, sim, haver uma estratégia a médio e longo prazo. A dimensão de Portugal e o facto de ser um país periférico são complexos que não fazem sentido e teriam de ser ultrapassados. Daí a necessidade de um trabalho construtivo e persistente, envolvendo planeamento estratégico, educação e formação e qualidade das instituições democráticas. A velha escola do planeamento e a ideia de uma Europa de vontades partilhadas estavam bem presentes. A economia teria de ser humanista, com o reconhecimento da dimensão cultural. Recordo a referência familiar de Eduardo Salgueiro, exímio editor, animador da "Inquérito" com os seus preciosos cadernos, cidadão e democrata exemplar. Regressei agora à minha janela e julguei entrever, a subir a nossa rua, como uma sombra de saudade, o vulto inconfundível do meu amigo João Salgueiro. E fiquei a lembrar.. Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian