Jeff Bezos, John Wayne e Stanley Kubrick

Karl Marx propunha o conceito de acumulação primitiva para explicar o poder do capital. Independentemente das respetivas interpretações políticas, o conceito tornou-se inoperante para compreender o mundo em que vivemos. Agora, o poder mais forte, ou mais perverso, pertence àqueles que podem gerar e, num certo sentido, acumular eventos "informativos", capazes de preencher, instantaneamente, os ecrãs de todo o mundo.

Jeff Bezos, por exemplo. No dia 20 de julho deste ano da graça de 2021, o seu voo num foguetão da Blue Origin (10 minutos de duração, 107 km de altura), transformou-o em protagonista de todos os circuitos globais, num fenómeno cuja omnipresença dá que pensar. Por razões financeiras? Sim, também. Afinal, vivemos num mundo em que o dinheiro que se gasta para fazer um filme ou uma peça de teatro pode gerar infinitos e inconsequentes debates "políticos", mas um multimilionário a celebrar o "turismo espacial" parece ser coisa obrigatoriamente redentora, festejada e difundida, não como uma missão, mas sim uma missa planetária.

Tenho a noção dos limites do meu desencanto. O voo de Bezos pode muito bem vir a entrar na história coletiva como um momento definidor de muitas questões civilizacionais, do desenvolvimento tecnológico ao progresso das relações humanas. Talvez... Como se escreve no site oficial da Blue Origin: "Estamos empenhados em construir um caminho para o espaço, de modo a que os nossos filhos possam construir o futuro."

Futuros à parte, convenhamos que o presente envolve perturbações difíceis de contornar. A começar pela imagem de Bezos, ao sair da nave, usando um tradicional chapéu de cowboy. Será defeito cinéfilo, mas não pude deixar de pensar que, naquele momento, John Wayne deu uma volta no túmulo... Que aconteceu para que a iconografia mitológica dos heróis da expansão para Oeste seja agora reconvertida em "símbolo" ostensivo de mediatização planetária? O fenómeno é tanto mais chocante quanto há um anti-americanismo primário que circula através de todas as fronteiras geográficas e culturais (Clint Eastwood é republicano - será que "pode" ser um grande cineasta?), mas ninguém parece disposto a, pelo menos, parar para refletir sobre o show mediático de Bezos.

Enfim, "ninguém" é apenas um desabafo excessivo pelo qual peço perdão. Variados exemplos poderão ilustrar o facto de haver quem não abdique de pensar para lá daquilo que as rotinas e repetições "informativas" tendem a transformar em evidência inquestionável. Cito apenas dois desses exemplos: o cartoon de André Carrilho ("Bilionários no espaço"), ontem neste mesmo jornal, e o artigo de Caroline Framke, editora de televisão da Variety, publicado no próprio dia 20, com o título "Ver Jeff Bezos a viajar no espaço foi mais deprimente do que inspirador".

O facto de uma publicação como a Variety dar a devida atenção ao voo da Blue Origin decorre de uma agilidade de pensamento que importa sublinhar. Fundada em 1905, consagrada como a "bíblia do cinema", a Variety cumpre uma lógica editorial que há muito trabalha para lá de qualquer caracterização fechada ou unívoca de cinema & televisão, em boa verdade integrando factos e reflexões que vão desde os movimentos da economia às dinâmicas da política.

Jeff Bezos não é um descendente de David Bowman, o astronauta interpretado por Keir Dullea no filme 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. O frente a frente das duas personagens justifica-se pela partilha do mesmo "objeto": a conquista do espaço. Aliás, podemos admitir que, para classificar a sua proeza, Bezos não desdenharia a frase de um dos cartazes originais do filme: "Um drama épico de aventura e exploração".

Acontece que a experiência de Bowman (apelido que, à letra, significa "homem do arco") não se esgota na ideia de construir um "futuro" para as crianças. O seu confronto com o computador HAL 9000 está mesmo marcado por uma perspectiva, existencial e política, que não está na moda. A saber: o universo científico não é um prolongamento "natural" da identidade humana, antes um produto das convulsões históricas dessa identidade. O filme surgiu há mais de meio século, a sua ação "aconteceu" há 20 anos, mas Kubrick subiu mais alto que Bezos.

Jornalista

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