Javier Marías

Em 1997, em suprema homenagem ao non-sense, Javier Marías aceitou fazer parte de uma ficção sobretudo bem-humorada, na Ilha de Redonda, que é um minúsculo rochedo no mar das Caraíbas, nas proximidades de Antígua e Barbuda. Constitucionalmente, tornou-se um reino de papel, apenas vocacionado para homenagear a liberdade de espírito. E assim se formou uma espécie de confraria, que distribui títulos entre nomes consagrados, que apenas aceitam não se levar demasiado a sério, denunciando a prevalência das linguagens do poder, da hipocrisia e do dinheiro. Marías tornou-se, deste modo, um monarca de ilusão, encarregado de promover a cultura pela ironia, na linha dos seus ilustres companheiros ou antecessores: J. M. Coetzee, Eric Rohmer, Ray Bradbury, Claudio Magris e Milan Kundera... E a situação entusiasmou Marías, admirador da cultura anglo-saxónica e defensor da liberdade criadora. Tudo começou quando Mathew Shiel, um industrial irlandês dos transportes, reivindicou em 1865 a posse da ilha deserta. Naquela época não pertencia a nenhum país. O filho Philippe Shiel, nascido pouco antes, foi proclamado rei. Os britânicos declararam, porém, a soberania formal da ilha e incorporaram-na em Antígua em 1872. Quando Philippe cresceu, assumiu o trono e designou com a sua morte o poeta John Gawsworth como monarca. Este renunciaria em 1966, sucedendo-lhe Arthur John Roberts e John Wynne-Tyson, até que Marías foi reconhecido em 1997.

A situação revela a personalidade de Javier Marías, autor excecional e personagem de um mundo imaginário, com grande capacidade inventiva e independência, a mesma que o levou a recusar o Prémio Nacional de Literatura Narrativa, de Espanha (2012), pelo romance Enamoramentos, por uma questão de princípio, devidamente anunciada com antecedência, como distanciamento das glorificações públicas, mas sobretudo em solidariedade para com os nomes maiores da cultura espanhola sem qualquer reconhecimento. E neste ponto foi marcante a referência, que nunca deixou de fazer, às injustiças sofridas por seu pai, Julián Marías, filósofo e discípulo de Ortega y Gasset, alvo de traições e afrontas indignas, que Javier denunciou, indicando os responsáveis por tão clamorosas injustiças. Daí a recorrência na sua escrita do tema da traição. A memória da suspeição e da mentira nunca deixará, por isso, de estar presente no seu horizonte ético e literário. Afinal, como perguntou em Quando os Tontos Mandam (Relógio d"Água): "Pode fazer-se alguma coisa num mundo em que contamos com gravações, com som e imagens, com máquinas calculadoras mais fiáveis do que nunca, e tudo isto é refutado com desfaçatez? Estaremos amodorrados, hipnotizados ou simplesmente idiotizados para acreditarmos mais em quem distorce a realidade do que nos nossos olhos e ouvidos, e até do que na aritmética?".

Crítico severo do conformismo e de supostas correções políticas e sociais, foi um observador atento da realidade contemporânea. Com obra traduzida em 40 idiomas e em 60 países, Javier Marías, a partir da sua formação anglo-saxónica, mercê do exílio de seus pais nos Estados Unidos nos anos cinquenta e de um agudo sentido de coragem, soube fazer acordar a cultura espanhola, procurando libertá-la de complexos e de lugares comuns, num especial culto cosmopolita, no romance, no conto, no ensaio, na tradução e na crónica. Há assim um encontro entre a versatilidade britânica, fruto da experiência do ensino em Oxford, e o trágico espanhol. Berta Isla é a história da fragilidade de uma relação condenada ao segredo, ao fingimento, ao desencontro, em que lealdade e ressentimento se entrelaçam, recordando o escritor a frase repetida por seu pai: "Conheço a tua face hoje. Mas como posso adivinhar como será ela amanhã?". E como afirmou William Faulkner, "a literatura não serve para ver melhor, apenas permite medir a espessura da escuridão".

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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