Já viram a agenda das nossas crianças?

Posso ter consulta ao domingo à tarde? É quando tenho tempo livre", diz-me uma criança de 9 anos. A outra criança perguntei recentemente como se sentia o seu corpo numa determinada situação que relatava, ao que me respondeu que "não tenho tempo para parar e ouvir o que sente o meu corpo".

Os dias destas crianças começam bem cedo com as aulas, que duram grande parte do dia. Depois, seguem-se as explicações ou o ateliê de tempos livres (que de livres têm muito pouco) e as mil e uma atividades extracurriculares, entrando pela noite dentro. Banho, jantar e cama. Chega o fim de semana e o cenário repete-se. Sobra o domingo à tarde ou ainda menos do que isso.

A agenda sobrelotada destas crianças é o retrato fiel das agendas de milhares de outras crianças que, semana após semana, mês após mês e ano após ano, correm pela vida sem tempo para parar e descansar. As suas agendas estruturadas não o permitem.

O artigo 31.º da Convenção sobre os Direitos da Criança é muito claro quando sublinha o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e atividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística. Parece, assim, que estamos a dar mais atenção à segunda parte deste direito, focada na participação em atividades diversas, do que à primeira, relativa ao descanso e ao tempo livre.

Um processo de crescimento saudável implica a satisfação de todas as necessidades da criança, e o repouso é uma delas. Não é moleza, preguiça ou tempo "morto", abrindo caminho ao ócio e à não produtividade. É, pelo contrário, um tempo muito vivo e cheio de oportunidades para criar e (re)inventar. "Não ter nada para fazer" é fantástico do ponto de vista da estimulação da criatividade da criança, ajudando-a, ao mesmo tempo, a parar para pensar e para sentir. E se, para a criança habituada à correria, não ter nada para fazer gera algum desconforto, pois é hora de aprender a lidar com essa frustração e a encontrar estratégias adequadas para a superar.

Proponho que olhemos para as agendas dos nossos filhos à luz deste direito. Uma semana tem 168 horas. Destas, quantas são passadas em aulas e atividades? E quantas são passadas a dormir? E será este tempo suficiente para um sono reparador? Quantas horas sobram e o que é feito nesse tempo? Existe verdadeiro tempo livre?

Sugiro, assim, um processo de reflexão, se possível envolvendo os filhos de forma ativa, que possa ajudar a uma eventual mudança e reajustamento dos tempos e agendas das nossas crianças, reservando tempo para não fazer nada.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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