Isto vai dar em alguma coisa? – Ep. II

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Não deixemos escapar esta oportunidade para aplaudir o parlamento porque elas não abundam. A forma como foi conduzida, desenvolvida e concluída a Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES/GES foi exemplar."

Assim começava um artigo de opinião do jornalista Paulo Ferreira, publicado no Observador, a 1 de maio de 2015, acerca da prestação dos deputados daquela comissão parlamentar de inquérito.

Confesso-vos que esta crónica foi uma das minhas grandes inspirações quando iniciei esta empreitada longa e complexa de fazer parte da nova comissão de inquérito parlamentar (CPI) às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução.

Mas perguntava-se Paulo Ferreira: "Porque é que chegámos, desta vez, a um resultado tão diferente do de outros trabalhos (...)?" E logo deu a resposta: "Porque desta vez os deputados se concentraram na missão de esclarecer e ajudar a encontrar a verdade em vez de estarem mais preocupados em disfarçá-la ou ocultá-la em nome de interesses partidários ou cumplicidades de ocasião."

Pois é, mas bastaram algumas longas horas de audições para deitar por terra a imagem imaculada que Paulo Ferreira ali descrevia dos deputados e da importância do inquérito parlamentar para a descoberta da verdade.

Na passada quinta-feira fomos surpreendidos com um requerimento do Partido Socialista que pretendia obter os depoimentos escritos do ex-Presidente Cavaco Silva, dos antigos primeiros-ministros Durão Barroso e Passos Coelho e, pasme-se, a audição presencial do ex-comissário europeu Carlos Moedas, à data dos factos secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro.

Sim, o mesmo Carlos Moedas que é atualmente candidato à Câmara Municipal de Lisboa pela coligação PSD-CDS/PP e que, apesar de enfrentar o incumbente, tem fortes probabilidades de ganhar a capital aos socialistas.

Vale tudo! Numa tentativa absolutamente vergonhosa de ferir a incontestável credibilidade de Moedas, o PS, igual a si próprio, faz-se valer da comissão de inquérito para fazer face a interesses meramente partidários, que em nada contribuem para a missão da comissão: alcançar um conhecimento profundo dos factos e apurar responsabilidades, políticas e criminais.

Este incidente vem a pretexto da audição a José Honório, ex-administrador do BES e do Novo Banco, em que o PS insinuou que os à data responsáveis políticos haviam apoiado o calamitoso aumento de capital do BES, ocorrido em junho de 2014, apesar de terem conhecimento, antecipadamente e através de Ricardo Salgado, do enorme passivo em que estava mergulhado o GES.

Entretanto, a antiga ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, será ouvida já no próximo dia 1 de abril e todas estas e outras questões merecerão o devido esclarecimento.

O que não pode deixar de ser referido, é que os ex-administradores do BES que agora prestaram os seus depoimentos, bem como os mencionados governantes, já haviam prestado as mesmas declarações na anterior CPI ao BES, sem que, à época, o PS agisse como se tivesse sentido o "chamamento" justiceiro.

Pois agora, para além da execrável atitude de se servir da comissão de inquérito para fins eleitorais autárquicos, meramente circunstanciais, o PS também não resistiu a abraçar a narrativa de Ricardo Salgado de que, apesar de tudo, o BES era viável e que a resolução foi um erro. Contudo, este PS é o mesmo que em 2015 votou favoravelmente o relatório final da CPI ao BES/GES, que concluiu justamente que a aplicação da medida de resolução ao BES era a mais adequada.

Aliás, compreendemos bem esta necessidade do Partido Socialista de "puxar a cassete atrás". Trata-se de desviar a atenção do verdadeiro objeto da comissão parlamentar: investigar a venda do Novo Banco, as perdas registadas imputadas ao Fundo de Resolução e que os contribuintes portugueses estão a pagar. É que foi este PS que, em 2017, "vendeu" (está entre aspas porque na verdade foi praticamente oferecido) 75% do Novo Banco à Lone Star, que lá injetaria mil milhões de euros, ficando o Fundo de Resolução com 25%, com o compromisso de lá injetar 3089 milhões de euros e sem assento no conselho de administração do banco.

Mas sobre isto, também lá iremos, a devido tempo.

Deputada do PSD

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