2001: Odisseia no Espaço (1968): por dentro do corpo do computador
2001: Odisseia no Espaço (1968): por dentro do corpo do computador

Inteligência Artificial, zombies & etc.

Os avisos andam por aí: a Inteligência Artificial veio para ficar, desafiando a nossa consciência.
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Há mais de 50 anos, no seu ensaio O Prazer do Texto (1973), Roland Barthes apresentava uma definição maravilhosamente ambígua das práticas do leitor/escritor: “O prazer do texto é o momento em que o meu corpo vai seguir as suas próprias ideias” (cito a tradução de Maria Margarida Barahona, com chancela das edições 70). Tal definição abalava a herança de muitos séculos em que, com maior ou menor alegria, os humanos foram acreditando que as suas ideias estavam seguras num lugar não corporal: a “mente” ou o “espírito”, talvez a “alma”. Aliás, acrescentava Barthes: “(...) pois o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.”

Saltamos para o nosso futuro anunciado e reconhecemos que essa perplexidade — de que falamos quando falamos de corpo? — persiste, perversamente transformada, nas atribulações geradas pelo desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Atravessamos tais atribulações entre o fascínio de uma filosofia tacteante e a avalanche de “análises” com que o espaço televisivo parasita os nossos dias. Seja como for, se a IA tem ideias dentro de si — o que parece ser uma evidência irrefutável —, talvez a possamos conceber, não apenas como um sistema de pensamento, mas também como um corpo que coincide (ou não) com esse pensamento que integrou.

Semelhante hipótese envolve uma ameaça das “máquinas” que, da comédia à tragédia, o cinema há muito explicitou — de Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, a Ready Player One (2018), de Steven Spielberg, passando, claro, pelo emblemático 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. A obra-prima de Kubrick encena mesmo o computador HAL 9000 como uma entidade ditatorial: num gesto radical de defesa, o astronauta interpretado por Keir Dullea irá violar o corpo tecnológico de HAL numa cena em que descobrimos as suas “vísceras” como um inusitado armazém de tons sanguíneos.

Qual é, então, a ameaça? Digamos que os criadores de IA não têm a certeza se a IA tem as mesmas ideias com que eles próprios a criaram. O que, por amarga ironia, pode suscitar uma pergunta: para quê, então, desenvolver aquilo cujos efeitos desconhecem? Eis o que parece ser uma síndrome tecnológica e, por certo, financeira da nossa época, à maneira dos explosivos foguetões de Elon Musk. Para quê construí-los? Será apenas para garantir a alguns multimilionários umas dezenas de minutos libertos da gravidade terrestre? Enfim, fiquemo-nos com o sabor dúplice da palavra “gravidade”...

O inglês Mustafa Suleyman (nascido em Londres, em 1984) é alguém que toma a IA muito a sério. E não poderia ser de outra maneira, ou não fosse ele CEO da Microsoft AI, além de cofundador da Inflection AI. Há poucos dias, no seu site [mustafa-suleyman.ai], apresentou uma longa e muito interessante reflexão sobre os futuros possíveis da IA cujo otimismo não exclui alguma prudência. O título é programático: “Devemos construir a IA para as pessoas; não para ser uma pessoa”.

Para Suleyman, tudo decorre do facto de poder estar a nascer uma IA "aparentemente consciente” ("seemingly conscious”) para a qual ele propõe a sigla SCAI (“Seemingly Conscious AI”). A sua primeira definição tem o seu quê de divertido, já que se trata de uma entidade que “partilha alguns aspetos de um ‘zombie filósofo´". Como? Consegue “simular todas as características de um estado consciente, mas por dentro está vazia.” Ou ainda, explicitando a sua ambígua utopia: “O sistema de IA que imagino não seria exatamente consciente, mas imitaria o estado consciente de modo tão convincente que seria impossível distingui-lo de uma reivindicação que qualquer um de nós pudesse fazer sobre a nossa própria consciência.”

Voltando aos ecos de Barthes, dir-se-ia que estamos “condenados” a lidar com uma IA que funciona como um corpo imponderável, porventura apelando para as ideias do nosso humaníssimo corpo. O que, um século depois de Freud, talvez signifique que as certezas que construímos através daquilo a que damos o nome de “consciência” voltam a enfrentar um abalo de múltiplas consequências. Eis uma angústia a que não falta algum humor, sobretudo se evitarmos carregar no botão errado.

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