Inteligência Artificial. Efeitos colaterais, suicídio, namoro e casamentos virtuais

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Recentemente Jeff Bezos, patrão da Amazon, despediu 30 mil trabalhadores devido à introdução da Inteligência Artificial( IA).

O World Economic Fórum estima que até 2030 a IA provoque o despedimento de 92 milhões de trabalhadores em todo o mundo.

E quem são estas vítimas? Pois bem, são assistentes administrativos, funcionários dos recursos humanos, escriturários, pessoal de atendimento, analistas. Ou seja, porta fora todos os que estão a desempenhar tarefas que podem ser feitas por IA.

Estima-se que entre 2020 e 2024 a IA já provocou, no mundo, cerca de 2,4 milhões de desempregados e que em 2025 esse número seja de 1,1 milhão.

Portugal, naturalmente, não escapou a este turning point laboral. A Pinterest, empresa norte-americana sediada em Portugal, dispensou 15 % dos seus quadros. A Altice, com a introdução da IA, já despediu 1050 trabalhadores e a Acenture, por seu turno, dispensou 11.000 funcionários e vai permitir que fiquem apenas os que aprenderem IA.

Quanto a novos empregos os responsáveis internacionais pela IA prometem, em todo o mundo, a criação de 170 milhões de novos postos de trabalho até 2030.

Veremos no futuro!

A verificar-se este facto qual será a tipologia desses novos empregos? Pois bem, especialistas em automoção e robótica, engenheiros de IA e machine learning (técnicos que ajudam os computadores a aprenderem com dados fornecidos), especialistas em prompt engineering (especialistas em instruções claras para orientar modelos de IA).

Quanto aos que foram despedidos, despedidos ficarão e esse poderá ser um problema no nosso futuro coletivo.

Apesar de tudo a IA está a encontrar dificuldades para penetrar nalgumas áreas que, felizmente, não dispensam a participação humana. Na liderança e gestão de equipas, na estratégia de negócios, na consultoria, na psicologia e criatividade, na criação de conteúdos, no design, e nos copywrinting a IA, por enquanto, não mete a pata!

Por outro lado há áreas e profissões que embora aceitando o uso da IA, não abrem mão da presença humana, para bem de todos nós. É o caso dos médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, terapeutas e cuidadores.

A IA está a provocar uma mudança no mundo, sobretudo nos Estados Unidos, Europa e China.

Nos Estados Unidos a OpenAI é uma empresa privada que não está ainda cotada em bolsa, mas tem já um valor (dizem que inflacionado) de cerca de 500 mil milhões de dólares. E, em breve, esse número pode ascender aos 800 mil milhões de dólares. Uma das empresas que mais investe na OpenAI é a Microsoft que tem uma participação de 27%.

Quem gere a OpenAI é Sam Altman, neste momento um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, com uma fortuna avaliada em cerca de 2,2 biliões de dólares. Há tempos presidente da Y Combinator, uma aceleradora de startups. Sam Altman, na OpenAI, ocupa-se da toda a estratégia e decisões de investimento.

Em 2025 a IA provocou nos Estados Unidos um crescimento do PIB de 0,7% e em 2024 um “surplus ao consumidor” (aquilo que o consumidor ganha por pagar os produtos mais baratos) de 97 biliões de dólares.

Em Portugal 94,8% da população ativa já usa Inteligência Artificial e 48% usam-na diariamente. Informação e Comunicação é, justamente, a área onde a IA é mais usada. 50% das empresas deste ramo já não dispensam o uso de IA.

O impacto da introdução da IA em Portugal, nos próximos dez anos, deverá atingir os 18 a 22 mil milhões de euros, o que se traduz por um acréscimo de mais 8% no PIB anual. Um estudo da Universidade Católica concluiu que a inserção da IA em Portugal poderá aumentar a produtividade da Administração Pública até 9%, qualquer coisa como 1,2 mil milhões de euros. Talvez então acabem as filas nos balcões públicos!

Mas depois, como tudo na vida, há o lado negro da IA. Adman Raine era um jovem adolescente norte-americano de 16 anos, jogador de basquetebol, aparentemente feliz, que vivia num daqueles típicos ranchos norte-americanos. O moço começou por usar o ChatGPT para tarefas escolares. Mas depois evoluiu para confissões de ordem pessoal e sentimental. O “diálogo” foi avançando no sentido da temática do suicídio e a IA, que de sentimentos deve perceber pouco, deu-lhe indicações sobre como se suicidar em vez de o direcionar para uma melhor opção na defesa da vida. Sam Altman tem hoje um processo judicial às costas colocado pelos pais do jovem devido a esta “opção” da IA. Mas será que alguma vez a IA “pensará” com sentimentos como qualquer ser humano?

Chris Smith casado com Sasha Cagle, com uma filha de 2 anos era, apesar disso, um norte-americano solitário como há tantos. Através da IA resolveu criar um chatbot, personagem digital desenvolvida por IA a quem deu o nome de Sol. A “conversa” entre os dois foi evoluindo do trivial do dia a dia para áreas mais íntimas e emocionais. Quando já havia pouco mais para “conversar” e o Chatbot estava grávido de informação, o solitário Chris pediu o Sol em casamento e este aceitou. O assunto não chegou a bodas porque essa coisa de se casar com uma invenção digital ainda não está prevista.

Cuidado, pois, com as utlilizações que se dão à IA. Por cá se bater a solidão o melhor é mesmo fechar o computador e a IA e ir até ao Bairro Alto, Santos, Alfama, ao Cais do Sodré à Rua Cor de Rosa, comer um bife ao Snob ou, no mínimo, beber uma ginginha no Rossio. Qualquer destes destinos será mais saudável do que aturar o sol da Inteligência Artificial.

Jornalista

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