Indústria cimenteira e a aposta na sustentabilidade: um caminho sem retorno 

Em tempos em que os desafios da sociedade, multiplicados neste contexto de pandemia, surgem de vários quadrantes, é imperativo projetar o futuro, necessariamente mais sustentável, em prol das gerações vindouras. A sustentabilidade - uma inevitabilidade nas agendas nacional, europeia e mundial e um imperativo para a consolidação do desenvolvimento - tem que ser vista de forma holística. A sustentabilidade ambiental, económica, e social - que não pode nunca ser dissociada da sustentabilidade industrial - exige um esforço global, uma atuação concertada ao nível nacional, europeu e internacional.

Um bom exemplo da concretização desta ideia encontra-se na Proposta de Regulamento sobre um Mecanismo de Ajustamento de Carbono na Fronteira, o CBAM, parte do recentemente adotado pacote "Fit for 55" da Comissão Europeia. Só com a efetiva aplicação deste mecanismo, em conjunto com o Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) pelo menos até 2030 - e que serviu de base a tantos investimentos da Indústria Cimenteira - se poderá efetivamente prevenir o risco de fuga de carbono e a respetiva deslocalização de produção para países com requisitos em matéria ambiental menos exigentes e custos de emissões de carbono inferiores que os aplicáveis às indústrias dos países da UE enquanto se motiva países terceiros para as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. Apenas aplicando um conjunto de regras e custos de emissão na produção semelhante nas importações para a UE, e um ajuste ao valor das exportações da UE para países terceiros, poderemos colocar o nosso setor em condições concorrenciais justas e equitativas a nível global. Só assim será possível garantir a permanência da sua produção na UE, bem como a manutenção dos mais de 35000 funcionários da Indústria Cimenteira Europeia e dos 5100 postos de trabalho diretos e indiretos nacionais, ou do atual nível de exportações, fundamental para o equilíbrio financeiro dos países comunitários e que representa, a nível nacional mais de 1,6 mil milhões de euros desde 2005, representando 50% da produção total.

O cimento, que constitui a componente chave do betão, e é o segundo produto mais consumido a nível mundial, representa cerca de 7% das licenças de emissão de carbono comercializadas na UE estando mais de 200 fábricas abrangidas pelo CELE. Destas, 6 localizam-se em Portugal, estimando-se que, entre 1990 e 2017, as fábricas nacionais reduziram as suas emissões específicas de CO2 em mais de 14%. O nosso compromisso é o de reduzir, ao longo de toda a cadeia de valor, em 48% - 36% se considerarmos a cadeia de valor até ao cimento - das emissões totais de CO2, para o cimento, até 2030, para que progressivamente se possa atingir a neutralidade carbónica ao longo da cadeia de valor até 2050. E aqui importa também referir a contribuição para a riqueza criada pelo setor dado o seu elevado efeito multiplicador na economia: estima-se que por cada euro de valor acrescentado na fileira de cimento e betão são gerados cerca de 3 euros na economia. Também por estar localizada longe dos centros urbanos a Indústria Cimenteira, é fundamental para o desenvolvimento local. É, portanto, essencial que este sector possa continuar a acentuar o esforço que tem feito para ser cada vez mais sustentável e alcançar os seus objetivos espelhados no Roteiro para a Neutralidade Carbónica da Indústria Cimenteira Nacional.

Em suma, temos a obrigação coletiva de aproveitar uma oportunidade única a nível nacional para rever as políticas públicas e apoiar a transformação industrial em curso. Será fundamental que estas sejam direcionadas para defender a Indústria nacional em geral - não numa lógica protecionista, mas numa ótica de criar as condições equitativas, repito, com as indústrias congéneres da UE e de países terceiros. A indústria em geral assume um papel fundamental para a recuperação económica do país, com potencial de alavancagem e desenvolvimento de sinergias, contribuindo para que Portugal se torne efetivamente numa economia dinâmica, inovadora e mais competitiva. Deveremos fazer o melhor uso possível dos fundos do PRR, apostando também na formação qualificada e na capacitação dos nossos trabalhadores, permitindo a aquisição de novas competências tão necessárias a uma transformação industrial mais verde e digital. Deveremos direcionar a capacidade de investimento, pública e privada, para a inovação, o desenvolvimento e a investigação, pois só com adoção de tecnologias disruptivas à escala industrial será possível alcançar uma economia descarbonizada em 2050. Pela nossa parte, investimos mais de 200 milhões de euros em medidas de redução do impacto ambiental e em I&D nos anos mais recentes e acentuaremos ainda mais essa nossa aposta num mundo que junte qualidade de vida e sustentabilidade como caminhos paralelos.

Continuamos a assumir a responsabilidade e o empenho em inovar e em contribuir para a construção sustentável e para uma sociedade moderna, dotada de infraestruturas resilientes e de edifícios inteligentes, descarbonizados, com desempenho energético quase nulo, consumo de recursos eficiente e redes integradas de tecnologia que nos permitam viver com conforto e segurança, respeitando em simultâneo o ambiente. Este é o caminho a percorrer por todos, sendo possível acreditar que com a partilha de esforços e promoção de sinergias alcançaremos um futuro com mais crescimento económico, maior resiliência, e efetivamente sustentável para as atuais e futuras gerações.

Presidente da Associação Técnica da Indústria de Cimento (ATIC)
CEO da SECIL

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