Igreja, casta pecadora 

Em contexto religioso judaico-cristão, aprende-se na catequese que pecar significa desobedecer ou ignorar a vontade de Deus, transgredir a Lei Divina, os 10 Mandamentos. E sabem-se de cor os pecados capitais que condenam os crentes pecadores aos fogos do inferno: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e o orgulho. É claro que, por atos ou omissões, nem o mais casto dos mortais se livra de uma pequena transgressão a que a catequese chama de pecado venial, matéria mais leve, mas nem por isso desculpável, a não ser em penitência. O encobrimento, ou ocultação, para além de palavras feias, estão certamente, na escala deste pecado capaz de remissão: não quebra a aliança com Deus, mas enfraquece a caridade, e merece por isso penas purificatórias temporais, como o Purgatório, esse nebuloso lugar onde estacionam as almas que morrem na graça de Deus e na sua amizade, mas ainda são imperfeitas. Logo, precisam de ser purificadas, para merecer o Céu. É da catequese.

Envolvido na teia que denuncia casos de abusos sexuais na Igreja, e acusado de ter ocultado e protegido um padre suspeito de abusos continuados, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente foi a Roma confessar-se ao Papa e colocar o lugar à disposição do sucessor de Pedro. Para justificar a ocultação de um crime civil, não colhe argumentar com os usos correntes da disciplina eclesiástica. Porque num estado laico não há lei canónica que se sobreponha ao Direito civil. É o Purgatório na carreira eclesiástica de D. Manuel. "É porventura fel que conhece bem, e que agora prova, depois dos "esforços" para prevenir a ascensão de Carlos Azevedo a patriarca no lugar dele", comentava ontem, a propósito, o João Gonçalves, ilustre colunista do JN, referindo-se ao papel de D. Manuel no afastamento do antigo bispo auxiliar de Lisboa, hoje bispo titular na Cúria Romana e, desde 2011, membro do Conselho Pontifício para a Cultura.

Para justificar a ocultação de um crime civil, não colhe argumentar com os usos correntes da disciplina eclesiástica. Porque num estado laico não há lei canónica que se sobreponha ao direito civil.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa viajou para Roma um dia depois do Papa Francisco ter levado mais longe e mais fortes os esforços de reforma que quer introduzir no governo universal dos católicos, ao retirar poder e autonomia ao Opus Dei, a única prelatura pessoal organizada, conservadora, dentro da própria Igreja, à escala internacional. Uma nova norma do Papa Francisco, já em vigor, retira a independência da instituição e despromove a figura do seu líder, que doravante não pode ser nomeado bispo, usar o anel ou os paramentos episcopais. A partir de agora, a figura cimeira do Opus Dei passará a ser Protonotário Apostólico Supranumerário, podendo usar publicamente o título de Monsenhor. É uma medida que, segundo Francisco, permite uma organização "baseada mais no carisma do que na autoridade hierárquica". Fundado em 1928 pelo padre espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, canonizado em 2002 por João Paulo II, o Opus Dei está presente em mais de 60 países e é composto por 90 805 membros leigos e 2095 sacerdotes.

O Papa decretou que a Obra - como também é conhecida a instituição - reportará anualmente ao Dicastério (nome atribuído aos departamentos que compõem a Cúria Romana) para o Clero, entidade responsável por avaliar, e não o próprio Opus Dei, como até agora, "as questões que houver que enfrentar", como a formação de sacerdotes ou "possíveis controvérsias". No mesmo passo, Francisco ordena que os estatutos do Opus Dei deverão ser "devidamente adaptados", por meio de propostas da própria instituição, mas que o Vaticano deve finalmente aprovar. São ventos de mudança no interior da própria Igreja.

Jornalista

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