Iémen e a "guerra dos livros"

Saltou à vista do observador atento, nesta semana, mais um indício da precariedade da já apelidada "guerra esquecida", entre houthis xiitas zaiditas e os outros, os sunitas. Todos muçulmanos, com os primeiros apoiados pelo Irão e os segundos apoiados pela Arábia Saudita, materializando no século XXI o grande cisma do islão do século VII, após a morte do profeta Maomé. Trata-se portanto, de um cenário de guerra por procuração, que a modernidade apelida agora de proxy, pela proximidade de alinhamentos ideológicos aos patrocinadores e neste caso também, pela proximidade territorial entre os verdadeiros contendores. Irão e Arábia Saudita confrontam-se quase directamente e em terreno neutro, o Iémen.

Nesta semana a notícia não é sobre destruição de património histórico ou a subnutrição dos mais vulneráveis, mas sim sobre algo que não deixa de se tratar de uma curiosidade aos olhos do ocidental, já que se confirmou que a classe mais alta da sociedade iemenita começou a vender os seus livros para fazer face às despesas domésticas. O livro, para quem é instruído em países pobres é considerado e tratado como um tesouro. De tal forma que há um ditado árabe que diz que o livreiro (de rua, sem loja nem portas) dorme descansado, porque o culto não os rouba e o ladrão não sabe ler! No mesmo alinhamento, recordo também um amigo bissau-guineense que a primeira coisa que faz quando lhe ofereço um livro, ou o tira da prateleira, é cheirá-lo com alguma cerimónia, enquanto o folheia encostado ao nariz, naquela rapidez com que um profissional de póquer baralha as cartas com as duas mãos apoiadas na mesa. Precisamente por serem tratados como tesouros de família, o cabeça-de-casal pretende deixá-los a seus filhos, estas vendas têm obedecido a certas negociações muito específicas. Ou seja, o livreiro de rua funciona agora como uma casa de penhores para os letrados vendedores, já que os querem recuperar intactos mais tarde. Este detalhe é muito importante, já que se tem verificado recentemente uma prática inédita, confirmadora que os homens adaptam-se às suas circunstâncias. Há proprietários de vastas bibliotecas de família a venderem, mediante encomendas de livreiros de rua, livros página a página. Ou ainda livreiros de rua, sem acordo prévio com o "bibliotecário de origem", a venderem livros página a página, directamente ao estudante que passa na rua.

Este episódio de venda à peça recordou-me uma tarde passada no Verão de 2009 num mercado de rua, a perder de vista, em Sidi Moumen, o grande bairro de lata de Casablanca e dos montinhos de peças de puzzle avulsas à venda. Mas quem é que passa por aqui e compra uma, duas ou dez destas peças? Lá me explicaram que um pai quando regressa a casa gosta sempre de levar um miminho aos filhos e na impossibilidade de lhes levar uma bola-de-berlim, tem ali opção económica em levar algumas peças todos os dias e de assim manter a atenção e expectativa nas crianças sobre que peça lhes calhará na rifa, da mesma forma que nós nos entusiasmávamos a propósito do Jordão ou o Nené nos poder sair naquela carteira de cinco escudos e finalmente ocupar o seu espaço na caderneta. Nunca concluí nenhuma destas colecções, como certamente muitos iemenitas não conseguirão comprar todas as páginas dos livros que agora se vendem de forma avulsa e que muitas barrigas certamente confortaram.

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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