Hemisfério Ocidental

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A Doutrina Monroe só ganhou esse nome mais tarde, mas nasceu do discurso do presidente americano James Monroe, em dezembro de 1823, advertindo contra qualquer tentativa de interferência europeia no Hemisfério Ocidental. Na época, havia o receio de que os países da Santa Aliança, a coligação que tinha derrotado Napoleão Bonaparte, aproveitassem para tentar ajudar Espanha a recuperar as colónias perdidas, transformadas em repúblicas. E se a situação do Brasil era diferente, com um Bragança no trono e casado com uma Habsburgo a satisfazer a Santa Aliança, bastou a informação sobre navios franceses no litoral brasileiro, para arrastar um pouco as negociações sobre o reconhecimento do novo país, com John Quincy Adams, o secretário de Estado, a pedir esclarecimento sobre a real posição de D. Pedro I, antes de Monroe abrir a Casa Branca ao enviado Silvestre Rebelo e assim formalizar o estabelecimento de relações diplomáticas, em maio de 1824.

A França dos Bourbon restaurados juntara-se após 1815 à Áustria, à Rússia e à Prússia nessa coligação conservadora europeia, decidida a eliminar qualquer vestígio da Revolução Francesa, enquanto a Grã-Bretanha, que em Waterloo tinha desferido o golpe definitivo nas ambições napoleónicas, marcava distância crescente.

Monroe pronunciou um discurso que teve muito do pensamento de Adams por trás, diplomata experiente e que seria o seu sucessor. Dificilmente os Estados Unidos daquela época, ainda à espera de celebrar meio século, tinham meios para travar a Santa Aliança. Mas Adams sabia que a poderosa Marinha britânica o faria, se necessário fosse. E isso permitiu a Monroe fazer a advertência, com convicção total.

Donald Trump preside hoje a uns Estados Unidos muito mais poderosos, que em 2026 vão celebrar 250 anos desde a Declaração de Independência, o célebre 4 de Julho. E por isso aquilo que a nova estratégia americana diz sobre o Hemisfério Ocidental é para levar muito a sério. A América, que no final do século XIX tudo fez para afastar os espanhóis das Caraíbas, apoiando a independência de Cuba e anexando Porto Rico; a América que durante a Guerra Fria se esforçou ao máximo para derrubar regimes pró-soviéticos nas vizinhanças, só falhando no caso cubano; essa mesma América quer agora contrariar a influência da China na América Latina, sobretudo na América do Sul. E a que resta da Rússia, acrescente-se.

No espaço de uma ou duas décadas, a China foi-se impondo em vários países latino-americanos como o principal parceiro comercial, ultrapassando os Estados Unidos. O sucesso da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota foi tremendo, e com os laços económicos costumam vir os laços políticos. Mais recentemente, a China procurou também captar para a sua esfera de influência até os países da região que tradicionalmente tinham relações com Taiwan, como o Panamá ou a República Dominicana.

Quando se menciona o Corolário Trump da Doutrina Monroe, a alusão é ao início do século XX, com o Corolário Roosevelt. Foi uma época em que os Estados Unidos, ainda jovens, mas com uma força em crescendo, impunham a sua vontade à vizinhança do Sul, umas vezes com a cenoura, outras com o bastão. Há interessantes cartoons da época a mostrar Teddy Roosevelt com a cenoura e o bastão. Ou o Tio Sam a mostrar quem mandava ali nas Américas.

Não se sabe se será mais com a cenoura ou com o bastão que Trump imporá a sua visão de umas Américas confiáveis para Washington, que combatem as rotas de emigração ilegal e os fluxos de drogas, mas sobretudo quer estar rodeados de aliados. Há líderes para quem a cenoura parece funcionar bem, como Nayib Bukele, de El Salvador, ou o argentino Javier Milei, que estabeleceram relações pessoais com o presidente americano e puseram os seus países a beneficiar da boa vontade americana. Já o venezuelano Nicolás Maduro é claramente visto como um líder ilegítimo por Trump, que apoia a líder oposicionista María Corina Machado, Nobel da Paz. E as ações militares contra lanchas envolvidas no narcotráfico, que partem de território venezuelano, mostram a determinação americana em enfrentar velhos problemas, um deles o papel dos gangues de traficantes. Nas últimas horas, os Estados Unidos confirmaram também a apreensão de um petroleiro junto à costa venezuelana, o que traz nova crise à relação entre Washington e Caracas. Também tem havido tensão entre Trump e Gustavo Petro, o ex-guerrilheiro que é descrito como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia. E mais uma vez a troca de acusações tem como pano de fundo a questão da droga, que é trágica nos países produtores, mas igualmente dramática para uns Estados Unidos que são o grande mercado, onde estão os consumidores cujos dólares enriquecem os cartéis. Só que se a Venezuela é vista com desconfiança desde os tempos de Hugo Chávez, a Colombia é tradicional aliado dos Estados Unidos, ao ponto de ser o único país da América Latina parceiro global da NATO, clube restrito, que inclui Japão, Coreia do Sul e Austrália.

Sabemos como evoluiu a Doutrina Monroe (que também queria a América longe das disputas europeias) depois do discurso de 1823. Também está nos livros de História o que se seguiu ao Corolário Roosevelt. A bem ou a mal, os Estados Unidos foram-se tornando cada vez mais fortes e o chamado pátio das traseiras acomodou-se. Trump agora fala de liderança americana, mas também de desenvolvimento partilhado. A nova estratégia de segurança nacional, no que diz respeito ao Hemisfério Ocidental, promete vantagens para quem estiver do lado americano. A competição com os chineses vai ser dura, mas a geografia, a história e a cultura jogam a favor dos Estados Unidos.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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