"Haver Cultural Português no Japão"

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Quando em conversa refiro o Japão como a área temática em que trabalho, invariavelmente o interlocutor responde com uma interjeição que transborda admiração e fascínio. E, também invariavelmente, a conversa envereda para apreciações sobre beleza, civilidade e honorabilidade. Sem dúvida, o Japão é um país que suscita o melhor do imaginário ocidental. Mas para os portugueses o Japão deve ser, sobretudo, apreciado pelo "haver cultural", uma herança cultural mútua, de que é tão significativa a celebração hoje de 480 anos de amizade.

Apreço e espanto pautaram desde o início as descrições dos japões, termo pelo qual os japoneses surgem designados na documentação portuguesa do século XVI. Jorge Álvares, capitão e comerciante que durante vários meses do ano de 1547 permaneceu na província de Satsuma e primeiro mercador ocidental a fornecer um retrato detalhado do Japão, caracterizou os japoneses como belicosos, acolhedores, gente que não rouba. Já Francisco Xavier, o primeiro missionário católico, no Japão desde 1545, apresentou os nipónicos como a melhor gente com quem tinha conversado desde que partira de Lisboa para evangelizar, destacando, entre outras características, o espírito ordeiro, respeitador, leal e obediente. Este tipo de observações e enumeração de qualidades foram sendo reproduzidas na documentação quinhentista, contribuindo para a construção e divulgação da imagem do japonês como um povo civilizado, apesar de bélico. Note-se que durante os primeiros 50 anos de relacionamento entre Portugal e o Japão, o arquipélago esteve envolvido numa guerra civil que só se deu por terminada em 1600. Aquelas avaliações são deveras interessantes porque, mesmo que muitas vezes redigidas no entusiasmo do primeiro contacto, fazem eco dos fundamentos da identidade cultural e social dos nipónicos, que ainda prevalecem. Os valores da ordem, do respeito ou da lealdade, atrás mencionados, são próprios de uma sociedade que se centra no colectivo e onde o indivíduo age sempre em função do contexto, nomeadamente em função da posição que ocupa no seio do grupo ou da organização em que se insere. Aqueles valores são tão prevalecentes agora, como no passado. O que explica, em parte, que viajar no Japão seja tão prazeroso, mas exija também a todo aquele que pretenda fazer negócios uma contextualização sobre modos e procedimentos em sociedade no Japão.

É sabido que a presença portuguesa no Japão, seguida por outros ocidentais, inaugurou um século profícuo em descobertas e interacções, comerciais, tecnológicas, científicas, artísticas, e que esse relacionamento, abruptamente interrompido (1640), só viria a ser recuperado no século XIX. Em 1860 assinava-se o Tratado de Paz, Amizade e Comércio, que garantia o relacionamento diplomático e autorizava, aos súbditos portugueses residentes no Japão, o livre exercício da religião católica, um tópico sensível pois o Cristianismo fora um argumento crucial para o corte de relações no século XVII, e a sua proibição remetera as comunidades cristãs nipónicas para a clandestinidade durante dois séculos, num registo tão peculiar que doze dos lugares associados a estas comunidades seriam incluídas, já no século XXI, no Património Cultural da Unesco. O estabelecimento da Legação de Portugal em Tóquio em 1903, consolidava o retomar do relacionamento interrompido. A residência permanente de um Ministro plenipotenciário, ou seu representante, abria caminho a um diálogo continuado Portugal-Japão. Também no século XX, o sentimento de espanto e de assombro percorre invariavelmente a escrita redigida pelos diplomatas portugueses acreditados no Japão. Espanto e assombro pela capacidade da civilização nipónica em se ir reinventando, num século política e militarmente marcado por movimentos expansionistas e duas grandes guerras. Espanto e assombro pelo entusiasmo dos japoneses pelo passado, no qual os portugueses ganhavam protagonismo, por terem sido os primeiros ocidentais a abordar e a residir no arquipélago nipónico.

De facto, os nipónicos preocuparam-se com a valorização da memória, numa resposta estratégica a interesses vários como a necessidade de preservar a sua identidade. O Japão primeiro enveredara por uma modernização e ocidentalização desabrida, e por vezes tão contrária ao modo de ser japonês, e, mais tarde, já no pós segunda grande guerra, acabaria por ter de renascer das cinzas. Neste processo de reconstrução da sua história, surgia invariavelmente os portugueses do século XVI, e daí um consequente e manifesto interesse pelas relações com Portugal. É precisamente este processo que leva os diplomatas portugueses a insistir na necessidade de renovação e valorização das relações luso-nipónicas. José da Costa Carneiro, Ministro de Portugal no Japão em 1929, afirmava que a ligação histórica se apresentava como a "porta aberta - escancarada" e que por isso devia ser a porta de entrada preferencial no relacionamento de Portugal com o Japão. Décadas mais tarde, Albertino Matias, Encarregado de Negócios em Tóquio nos anos de 1954 e 1955, reiterava a opção estratégica de Costa Carneiro, de fortalecer os laços com o Japão a partir do "haver cultural português no Japão".

"Portugal é o primeiro país europeu que o Japão encontrou", palavras do primeiro ministro Shinzo Abe na sua visita a Lisboa em 2014. E a consciência e redescoberta desse encontro faz cada vez mais parte também da memória histórica portuguesa.

Investigadora integrada do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

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