O pacote Mais Habitação tem ocupado noticiários e espaços de comentário. Não é para menos. Não tanto por causa da polémica, até porque grande parte dela é espúria, mas porque pela primeira vez em muitas décadas há um Governo que assume a política de habitação como política nacional (não apenas autárquica) e não-restrita à habitação social..Não que o Governo não tivesse feito nada. Ao contrário do que diz a Oposição, tinha antes implementado medidas mais cirúrgicas (como o IRS reduzido para contratos de longa duração ou a limitação de novos Alojamentos Locais em freguesias de maior pressão urbanística). Apesar de importantes, não foram suficientes. Fruto da confluência de várias dinâmicas de mercado, os preços continuaram a subir..Impunham-se, portanto, medidas de fundo, uma verdadeira reforma, como a proposta no Mais Habitação. Foi uma mudança de paradigma, como já o tinha sido a criação do primeiro Ministério da Habitação de sempre..Como é natural, a reforma não agrada às associações de senhorios e promotores imobiliários - seria de espantar se algo desenhado para baixar os preços lhes agradasse. E não seria uma verdadeira reforma se não levantasse algumas resistências..Pelo seu lado, a Oposição de Direita diz que as medidas são excessivas; a de Esquerda que são insuficientes. Como em tanto na vida, é no equilíbrio que encontramos a virtude..Sem dúvida que é preciso maior intervenção do Estado no mercado habitacional, ao mesmo tempo que se melhoram as condições para os privados colocarem mais casas no mercado. Nem o setor público pode resolver tudo, nem se pode deixar tudo ao privado. Equilíbrio..Se olharmos para outros países europeus, vemos que também se debatem para lidar com o problema. Na Irlanda, o paraíso de tantos liberais, foram criados limites aos aumentos das rendas em zonas de maior pressão e agravados os impostos das casas das casas vazias. Na Alemanha e Países Baixos, igualmente insuspeitos de radicais derivas esquerdistas, as políticas de habitação passaram a incluir limitações rígidas ao aumento das rendas. E em vários países foi também criada a figura do arrendamento compulsivo..Um pouco por toda a Europa, as tentativas multiplicam-se. E, ainda assim, acumulam-se as evidências de que respostas nacionais não são suficientes..O Governo português, sem se demitir da sua própria responsabilidade - criou apoios para combater o agravamento de rendas e prestações, tem o Mais Habitação prestes a chegar ao terreno, alocou fundos do PRR para reforçar a oferta imobiliária - sugeriu que o tema também deve ser rapidamente incluído na agenda política da União Europeia..A Oposição teve uma explosão de histeria. Talvez para evitarem pronunciarem-se sobre o essencial: concordam ou não?.Definir competências na área da habitação para a UE e permitir que mais fundos possam ser usados para esse fim poderá ser determinante para que os Estados-membros (e Portugal) tenham maior capacidade de enfrentar este problema..O desafio é enorme, tem também de ser essa a dimensão da resposta. Se o conseguimos fazer na resposta à pandemia e no plano de recuperação (PRR), porque não na habitação?.Nunca como agora, conseguimos ter acesso, em minutos, ao que foi dito neste importante órgão de consulta do Presidente da República..Não me parece um sintoma saudável..Eurodeputado