Há uma maçã podre na Defesa Nacional - e já não é possível ignorá-lo

Os recomeços, neste primeiro ano de maioria absoluta, mantêm curta esperança de vida. Passada precisamente uma semana da remodelação que visava devolver paz à pasta da Economia e tranquilidade à Secretaria de Estado do primeiro-ministro, a Defesa Nacional foi abalroada por buscas no seu ministério, com a detenção de três antigos dirigentes, um deles coordenador em funções. As suspeitas são de corrupção, abuso de poder, entre outras. E, infelizmente, não são nada surpreendentes. Quem acompanha o trabalho da jornalista Valentina Marcelino neste diário, sabe-o. Em junho de 2021, esta coluna procurou também chamar a atenção para isso mesmo ("Era uma saga portuguesa, com certeza").

Deixando a justiça à Justiça - seja lá o que isso for -, a prisão do homem que foi diretor-geral de Recursos da Defesa durante duas décadas é um caso que revela uma profunda falta de discernimento de dois membros do atual governo: João Gomes Cravinho, ironicamente promovido a ministro dos Negócios Estrangeiros após uma conturbada passagem pela tutela; e Marco Capitão Ferreira, atual secretário de Estado e presidente (entre 2020 e 2022) da empresa pública dedicada à Indústria de Defesa Nacional, a IdD.

Ambos, pública e factualmente, promoveram Alberto Coelho apesar de terem conhecimento do seu envolvimento na derrapagem orçamental da remodelação do Hospital Militar de Belém (de 750 mil para 3,2 milhões de euros dos contribuintes) e da adjudicação direta e obviamente indevida dessa obra a empresas sem alvará, capital social, funcionários ou credibilidade para tamanha empreitada. O estado das instalações, ao dia de hoje encerradas, e o historial das "empresas", no mínimo exótico, sobram como prova. A auditoria pedida pelo então secretário de Estado Jorge Seguro Sanches - sucedido por Capitão Ferreira e, também ironicamente, o único nesta história afastado de funções - já não deixava margem para dúvidas. Caso contrário, o ministro Gomes Cravinho não teria sentido a necessidade de enviar a dita para o Tribunal de Contas e para o Ministério Público.

"O primeiro-ministro, perante a publicação exaustiva destes factos, tem obrigação de proteger o seu governo - e o nosso Estado - dos que não estiveram à altura de servi-lo."

Onde é que Cravinho falhou brutalmente ao mínimo que se exige de um governante? Na decisão de aceitar a indicação de Alberto Coelho - diretor-geral que adjudicara contratos fora das suas competências e amplamente exposto pela auditoria na posse do ministro - para presidente da ETI, sucedendo ao sempre presente Marco Capitão Ferreira, hoje secretário de Estado da Defesa.

Tal, acrescentando a tentativa continuada de ocultar as ilegalidades, tornando confidencial uma auditoria a uma obra pública (!) contra um parecer depois emitido pela CADA (!), fazem com que a permanência de João Gomes Cravinho no governo - agora como ministro dos Negócios Estrangeiros - seja mais do que questionável.

Quanto a Capitão Ferreira, que já antes procurara ultrapassar a lei, levando o Tribunal de Contas a chumbar duas vezes o pagamento de cinco milhões de euros à referida IdD ("Contrato fulminado de ilegalidade", DN, 4/11/22) para a aquisição de navios-patrulha, a sua participação na escolha de Alberto Coelho não foi desmentida nas várias vezes que foi questionado sobre ela no Parlamento. Ter gasto 330 mil euros em ajustes diretos e mobília em ano de pandemia (DN, 18/5/22) demonstra que a ausência de discernimento na Defesa não se resumiu a Gomes Cravinho.

O primeiro-ministro, perante a publicação exaustiva destes factos, tem a obrigação de proteger o seu governo - e o nosso Estado - dos que não estiveram à altura de servi-lo.

Há uma maçã podre na Defesa Nacional.

E já não é possível ignorá-lo.

Colunista

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