A pergunta impõe-se num momento particularmente exigente para o país. Nas últimas semanas, tempestades de grande intensidade deram origem a cheias, deslizamentos de terras e danos significativos, provocando mortes e afetando comunidades inteiras. Estes acontecimentos exigem uma reflexão séria sobre a forma como lidamos com riscos que são hoje amplamente conhecidos.Negar as alterações climáticas é ignorar consensos científicos amplamente consolidados e fechar os olhos a evidências acumuladas ao longo de décadas. A ciência climática trabalha com dados, modelos e projeções que mostram, de forma consistente, o aumento da frequência e da intensidade de fenómenos meteorológicos extremos. Estes sinais são claros, reiterados e têm implicações diretas para a ação pública, económica e social.Portugal encontra-se numa posição particularmente exposta. A conjugação de alterações nos padrões de precipitação, aumento da temperatura média, stress hídrico e maior instabilidade atmosférica cria condições propícias para eventos severos. As tempestades recentes não foram um acaso imprevisível. Inserem-se numa tendência conhecida e amplamente estudada. Quando essa tendência se cruza com ordenamento do território desajustado, infraestruturas vulneráveis e respostas tardias, os impactos tornam-se inevitavelmente mais graves.O problema central não é discutir se as alterações climáticas existem, mas compreender por que o conhecimento científico disponível continua a ser insuficientemente integrado na definição das políticas públicas.O Estado tem aqui uma responsabilidade primária. Incorporar ciência significa planear com base em evidências, atualizar instrumentos de ordenamento, investir em adaptação, reforçar a proteção civil e avaliar riscos antes de decidir. A sustentabilidade passou a ser uma condição estrutural da governação.O setor privado não está imune a esta realidade. Empresas que ignoram as evidências científicas expõem cadeias de abastecimento, ativos, trabalhadores e investimentos a choques cada vez mais frequentes. Integrar conhecimento científico na gestão não é militância ambiental. É avaliação de risco, proteção de valor e viabilidade económica.Este desafio não se coloca apenas a Estados e empresas. Também as pessoas sentem diretamente os custos da não-sustentabilidade, seja através de riscos físicos, da perda de rendimento, da degradação de habitações ou do aumento do custo de vida. E o terceiro setor desempenha um papel essencial, apoiando comunidades vulneráveis, promovendo literacia científica e exercendo escrutínio informado sobre decisões públicas e privadas.O argumento dos custos económico e financeiro, que tem servido para adiar as decisões sobre a sustentabilidade, torna-se inconsistente quando o preço da não-sustentabilidade, incluindo destruição de infraestruturas, perda de atividade económica, aumento da despesa pública e agravamento dos prémios de risco, tenderão a ultrapassar, num horizonte mais curto do que frequentemente se admite, os custos associados à mitigação e à adaptação. O que durante anos foi tratado como custo ambiental torna-se um risco financeiro acumulado.Importa, no entanto, reconhecer que muitas empresas e pessoas não dispõem de capacidade financeira para investir individualmente em adaptação. É precisamente por isso que a sustentabilidade deve ser tratada como um risco sistémico e não como uma escolha individual, exigindo respostas coletivas, políticas públicas robustas e mecanismos de proteção social.Ignorar a ciência nunca é racional. É aceitar riscos evitáveis e transferir custos para o futuro. Num contexto de fenómenos ambientais extremos cada vez mais frequentes, tratar a sustentabilidade como risco sistémico deixou de ser uma opção e persistir na inação não é ceticismo. É negligência. Professor convidado UCP/UNL/UÉ