Guerras que infelizmente não são de Alecrim e Manjerona

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"A guerra, que aflige com os seus esquadrões o mundo/ é o tipo de erro perfeito de filosofia", afirmou num dos seus poemas Alberto Caeiro. A guerra e o horror dominam tragicamente os tempos recentes, demonstrando como é urgente uma educação que sustente a capacidade de nos colocar no lugar dos outros, que enfatize a não discriminação em função da pertença a determinados grupos étnicos, em função de deficiências, em função da orientação sexual, etc. Uma educação que proporcione às crianças e jovens instrumentos para se pensar e pensar os outros no registo da tomada de consciência das emoções e que as ensine a exprimi-las adequadamente. A abominação que assistimos todos os dias na televisão, a espiral hedionda de violência em que o ódio gera ódio, os discursos épicos da batalha e da nação que se sobrepõe aos valores do humanismo e nos quais os instintos mais primitivos de territorialidade são mais importantes do que as vidas humanas, tudo isto tem de ser veementemente contrariado. É preciso educar massivamente, caso contrário os seres humanos irão matar-se uns aos outros, é preciso educar massivamente para que as pessoas se aceitem umas às outras nas suas diferenças, afirma António Damásio numa entrevista. E essa ameaça, nos últimos tempos, entra-nos todos dias pelos olhos.

Os espaços e contextos da educação passam pela família e pela escola, que infelizmente têm às vezes as suas "guerrinhas" próprias sem analisarem as mútuas dificuldades em educar. A vida moderna em Portugal não protege as famílias: horas excessivas de trabalho, muitas das quais passadas ao volante ou em transportes públicos, dificuldades económicas e stresses decorrentes desses e outros problemas talvez faça com que muitas famílias não tenham oportunidades de partilharem os ditos «tempos de qualidade» com os seus filhos com a frequência necessária.

A escola e os professores, sem terem sido para isso preparado, são forçados, muitas vezes, a lidar com turmas onde os conflitos entre alunos e entre professores e alunos são muito mais frequentes do que o desejável para um ambiente salutar de aprendizagem. Discórdias e choques onde os alunos e professores nem sempre parecem ter consciência dos sentimentos vivenciados no conflito e nem tão pouco demonstram capacidade para os regular.

Nas últimas duas décadas têm sido implementadas no contexto escolar programas de desenvolvimento socioemocional e de regulação de emoções de forma a prevenir problemas de comportamento e problemáticas de saúde mental nos alunos. Apesar de fundamentados cientificamente, este tipo de programas (quando existem!) são, por regra, desenvolvidos durante uma hora, uma vez por semana, regressando de seguida os alunos para contextos escolares e familiares onde os comentários sobre as situações interpessoais, nomeadamente em relação aos conflitos, não recorrem a um discurso que aborde as emoções nem dão pistas para a regulação das mesmas. Esta realidade torna estes programas menos eficazes na medida em que amiúde o ambiente educativo acaba por não favorecer nem prolongar o que é ensinado nesses programas. Neste quadro talvez fosse interessante alargar este tipo de programas a pais e professores como um instrumento para alterar a natureza dos contextos educativos em relação à própria regulação emocional.

A verdade é que a violência e os sentimentos de exclusão sentidos por alguns jovens e o desespero de alguns professores que não conseguem lidar com a tensão contínua de certas turmas não são redutíveis aos elementos apontados neste curto espaço de opinião. Talvez, no entanto, a simplicidade desta análise pudesse ser superada com amor. O amor é um termo pouco aplicado na compreensão da escola e a sua realidade. No entanto, se todos, pais e professores, partilharmos a paixão por desencadear curiosidade, se nos comprometermos com intensidade a elogiarmos aspetos positivos do outro, se demonstrarmos compreensão pela dificuldades do outro estaremos sem dúvida a contribuir para atenuar sentimentos de exclusão e de solidão e isso é meio caminho para menos "guerrinhas" ... e talvez ajude mesmo a contribuir para aquela coisa que todos desejamos: a paz no mundo.

Professora do Ispa - Instituto Universitário e escritora

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