O atual drama de guerra vivido na Ucrânia deu ao europeu médio, aquele que acredita na publicidade e no que passa nas televisões, alheio aos truques da manipulação, um sentido de justiça perante a caça ao oligarca russo, no que de mais espectacular o voyeurismo tem, na imagem e localização do iate, no interior do jato privado, na montra vazia da "loja dos milhões". O "pobre europeu" sente-se justiçado e dorme descansado!.Ora este momento também é a prova dos dois pesos e das duas medidas aplicados pelo homem branco aos outros homens. Para o português médio e não só, o assunto é o do oligarca sefardita (ou talvez não), proprietário do Chelsea FC. É precisamente no capítulo futebol que os critérios da justiça demonstram ser verdadeiramente dúbios, para o europeu acima da média. Ponto prévio à análise que se segue, as autoridades inglesas, europeias, não sabiam das origens duvidosas (para o europeu médio que não tem acesso aos dados todos) da fortuna do "oligarca sefardita", bem como da sua teia de ligações ao Kremlin? Claro que sabiam, sendo claro também que aguardavam este dossiê para usarem como trunfo no momento mais oportuno, um dois em um, que serve como penalização pessoal e política, mas também como "engodo de justiça feita" para a opinião pública, que é quem em democracia tem verdadeiramente o poder na ponta da caneta, a nossa arma de destituição maciça!.A pergunta prévia também serve para outros actores, outras geografias. Estarão as autoridades inglesas, europeias, a par da guerra que decorre desde setembro de 2014 no Iémen? Estarão a par de que o proprietário do Newcastle United é um fundo pertencente à Arábia Saudita, país que há praticamente oito anos submete a população houthi do "Iémen do norte" à fome, às doenças, ao caos e ao colapso social? Os números também apontam para uma média de 250 mil mortos até aos dias de hoje. O que é isto comparado com os números da Ucrânia? Desculpe, esqueci-me que a Ucrânia é na Europa e que foram os jornalistas europeus que apelidaram a guerra no Iémen como "a guerra esquecida"! Compreendo a lógica da guerra, o preventivo, o geopolítico e as razões de Estado para evitar a criação do precedente, que funciona como uma jurisprudência no direito internacional. No entanto, o meu ponto, para o recentrar, não é o da racionalidade da guerra, sem aspas, mas antes os dois pesos e duas medidas aplicados por quem tanto enche a boca com o jargão justiça. Nós, os europeus, sem médias!.Notícia da semana é o facto de amanhã, sábado, fazer uma semana que a Arábia Saudita oficialmente anunciou a execução recorde de 81 pessoas, num só dia. Este número é superior ao total de decapitados em 2021. Todos acusados em processos de terrorismo, também aqui compreendo as razões de Estado e a lógica do "olho por olho", mas volto ao ponto inicial. Não será tudo isto equivalente ao que se passa na Ucrânia e merecedor do mesmo tipo de sanções? E o adepto abaixo da média do Newcastle dormirá confortável ao ter conhecimento que o seu clube tem no seu sustento este tipo de ligação tenebrosa, ou continua aos pulos a gritar olé olé? Claro que continua, desde que o clube ganhe, o adepto inglês não é em nada diferente do português!.Quanto à nossa guerra, fosse noutro continente, chamar-lhe-íamos de conflito étnico, mas como é na Europa, ficamos imunes à categorização reservada aos outros!. Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt Escreve de acordo com a antiga ortografia