Grande penalidade

Hoje é dia de futebol, e aqui estamos todos unidos em torno do futebol, e, portanto, eu não vou agora estar a falar de outros temas, porque é desconcentrar o fundamental. Temos de estar focados, e estamos todos focados: o senhor primeiro-ministro, o senhor presidente da Assembleia da República, eu próprio, o senhor presidente [da Federação Portuguesa de Futebol] Fernando Gomes, os portugueses todos", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa. Vai daí, até porque me senti especialmente visada no "portugueses todos", decidi atentar no futebol, não desconcentrar e estar focada. Mais tarde, António Costa reforçou este estratégico apelo nacional: "Ontem, o senhor Presidente pôde vibrar no estádio com a selecção de Portugal, eu pude vibrar através da televisão. No próximo sábado, trocaremos de posições. Eu irei sofrer em Munique, no jogo com a Alemanha, e espero que o Presidente festeje através da televisão os resultados de Portugal em Munique. Mas total sintonia, até em torno da selecção."

Respondendo à solicitação desta máxima hierarquia, a primeira questão que me ocorre é porque é que na Hungria estiveram milhares de pessoas a assistir ao jogo, a maioria sem máscara, enquanto em Portugal se vivem tantas restrições? Marcelo viajou, aproveitou a festa da bola, viu em directo e ao vivo os golinhos da nossa querida selecção, divertiu-se sem máscara. Mas o Presidente da República pode e você não porquê ? Já agora, os 60 mil que estavam no estádio em Budapeste são todos chalupas? Negacionistas? Acreditam que a Terra é plana? Suecos? Os cinco mil portugueses que também se sentaram nessas bancadas e que regressaram depois a Portugal foram sujeitos a medidas de controlo de saúde pública? Quais?

Já agora, por falar em dois pesos e duas medidas: João Cancelo testou positivo e ficou fora do euro. É verdade que, em Outubro, Ronaldo, depois de ter ora positivado ora negativado para a covid, declarou que os "testes PCR são uma grande treta" sem que os gordos lucros dos laboratórios e quejandos fossem abalados (a Coca-Cola também não perdeu por causa do CR7- mas o jornalismo não anda nos seus melhores dias). Certo é que, depois do defesa barreirense apresentar esse resultado, é estranho que os demais jogadores continuem no europeu. É que quando algo semelhante acontece numa turma, todas as crianças vão para casa 15 dias e são testadas, a par de todos os seus familiares e, mesmo com teste negativo, são obrigadas a ficar em isolamento. Porque é que o futebol tem um tratamento de privilégio face à escolaridade obrigatória?

Enfim, já tínhamos tido várias diferenciações futebolísticas, desde os mais que previsíveis mas não organizados festejos do Sporting até à final da Liga dos Campeões, na qual os adeptos ingleses puderam celebrar sem máscara, beber álcool na rua e infringir várias regras que têm sido impostas aos portugueses. A conclusão não é nova, mas tornou-se particularmente dura e inaceitável nestes tempos: em Portugal, o futebol goza de um regime de excepção, tudo pode e sempre pode. E é por isso mesmo que este fim-de-semana o primeiro-ministro entrou e saiu da capital para ir até Munique "sofrer no jogo", enquanto deixou montado um circo-cerco a Lisboa. As normas relativas à covid servem para mais alguma coisa além de controlar e esmagar os cidadãos? Temos de estar focados no fundamental? Já dizia o Futre: sócio, estou concentradíssima!

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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