A conjugação entre a arrogância e a teimosia governamental e a apatia de outros gestores é uma receita para o fracasso. Mascarar a realidade com um "otimismo mágico" revela um desprezo pela instituição Polícia de Segurança Pública e pelos profissionais que a servem. Esta postura denota total falta de compromisso com a missão e com o país, privilegiando interesses particulares e o estatuto individual em detrimento do bem comum.Se admitirmos que a falta de atratividade da PSP se deve, em parte, à falta de espírito de missão nos jovens, parece-me igualmente verdade que essa lacuna não afeta apenas os candidatos, mas também quem já exerce funções na instituição - inclusive em cargos de elevada relevância.Sobre o governo, não somos ingênuos. Sabia-se que a PSP estava esquecida há anos e que o último grande investimento fora em 2004. Sabia-se que esta carreira era tratada como "geral" no plano remuneratório, apesar dos deveres "especiais". Sabíamos que as cativações eram uma triste realidade e que o número de candidatos baixava sem que nada fosse feito para alterar este quadro.Longe de qualquer ingenuidade, aproveitámos um episódio concreto para agir. Fizemo-lo quando ficou claro que o risco não teria mais valorização - um detalhe que outros, por desconhecerem a lógica política, ainda não compreenderam. Sem romantismos, negociamos com uma visão construtiva e estrutural, sustentada pela pressão constante da nossa luta e pela coesão do grupo. Durante anos, a valorização das carreiras foi secundarizada; nesse sentido, a questão remuneratória, a progressão e os suplementos eram determinantes para alterar um paradigma que não se limitava apenas ao risco, mas ao esforço contínuo pela melhoria de todos os direitos dos polícias.Cientes da falta de vontade política do governo da AD - que, apesar de gozar de condições favoráveis, não cumpre a sua palavra - decidimos aproveitar esta oportunidade ímpar. Este Governo não só descumpre o acordo celebrado, como demonstra uma inação gritante em áreas vitais: falha no atrair os jovens, ignora o direito à pré-aposentação (uma ironia vinda da atual Ministra), permite cortes abusivos de folgas e mantém suplementos estagnados desde 2009. Não houve ainda qualquer esforço para acelerar a progressão horizontal nem para resolver questões administrativas simples, como a promoção a Chefe Coordenador.Reconhecendo que o acordo de 2024 foi importante, reconheço também que o atual governo não oferece garantias de seriedade. Ao ocultar a disponibilidade para cumprir o que assinou, o executivo demonstra falta de preocupação com uma realidade que se agrava. Concluo pela importância de se ter "agarrado" a oportunidade em 2024, face ao precedente da PJ e à inércia do governo anterior.Contudo, tenho a plena convicção de que, se o atual Executivo não aproveitar o acordo para uma negociação séria, enfrentará um 2026 marcado por fortes protestos. A atual postura de irresponsabilidade está, inevitavelmente, a traçar esse caminho.