Gosto mais da minha outra vida!

Acordo todos dias às 7. Levanto-me, e olho para o smartphone. Instagram, Facebook, LinkedIn... são as minhas primeiras interações do dia.

Acordo os miúdos. Banho, pequenos-almoços, lanches e mochilas... e começa o iPhone a apitar.

A minha outra vida acorda por volta das 8 da manhã. As reações às publicações da noite anterior começam a gerar o tão esperado "engagement".

A fotografia do meu filho no judo e o vídeo da minha filha no ballet no Instagram, a minha boca de escárnio no Twitter, a minha mais recente conquista no LinkedIn, escrita em inglês claro. O inglês deixa tudo tão mais perfeito... e a partilha dos mais recentes acontecimentos no meu local de trabalho no Facebook fazem da minha vida um local perfeito.

As minhas interações sociais são cada vez mais com gente desconhecida. Troco ideias nas redes sociais como se trocavam nos cafés e nos escritórios há umas décadas. Lembram-se de usar a palavra "escritório"? Pois...

As interações pingam. Enchem-me o ecrã de notificações. Enchem-me o ego!

Vou para o carro. Deixo os miúdos na escola e lá vou eu agarrado a um ecrã de 6 polegadas na IC19 a afagar o meu "eu digital".

Tudo perfeito. Tudo incrível. Não há gritaria, não há ralhetes na escola, não há braços torcidos ou cabeças partidas. Não há dificuldades nas despesas do dia a dia, não há escolhas entre as marcas de topo e as marcas brancas no supermercado. Não há coisas más. A minha vida, a outra, esta de que falo, é perfeita.

O meu filho já é cinturão negro e arrasa todos no dojo, a minha filha mexe-se como uma borboleta ao som da música clássica e eu, eu sou o melhor lá no escritório!

Nos meus momentos sem rede, sem dados ou sem bateria dou comigo a pensar que me transferi para dentro de um ecrã, ao estilo Tron (1982, Steven Lisberger). Começo a achar que a publicação constante de conteúdos nas redes sociais começa a corroer a minha privacidade, e pior, o sentido de mim próprio.

"Quando estudamos a dependência do ecrã, os utilizadores perdem a noção do tempo e acham que estão menos tempo no ecrã que aquilo que na verdade estão", quem o diz é Larry Rosen, professor de Psicologia da Universidade Estatal da Califórnia.

Rosen tem vindo a estudar os efeitos psicológicos da tecnologia desde 1984, e diz que estamos numa espiral fora de controlo.

É quase epidémico o que vivemos! É epidémico, mas nós queremos este vírus connosco.

Anna Lembke, psiquiatra e investigadora na área das Ciências do Comportamento na Universidade de Stanford, diz que construímos as nossas identidades através da forma como somos vistos pelos outros. Nada de novo... mas os outros de hoje são mais e estão online, pois grande parte dessa identidade é agora formada digitalmente. E isso pode ser tão fantástico e ao mesmo tempo fatal, de tão vulneráveis que ficamos com tanta exposição.

Recebemos tantas e tantas notificações todos os dias que sentimos que não podemos escapar às nossas vidas online. Mas... não podemos ou não queremos? Porque, da forma que o mundo real está, a minha outra vida é muito, mas muito melhor!

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG