Faltavam poucos minutos para as 10h00 da manhã quando começaram a chegar dezenas e dezenas de pessoas. Velhos e novos, mulheres e homens, gente em forma e gente com dificuldade, todos com pás, vassouras e o que lhes ocorreu levar para o ponto de encontro definido por Gonçalo Lopes no passado sábado. O Estádio Municipal de Leiria parecia ter sido engolido por um espírito maligno e o extenuado presidente da Câmara, ouviu galochas e botas a abrir caminho entre poças e entulho. Primeiro, pareceu-lhe um pressentimento, depois uma assombração feita de pessoas de carne e osso, gente em silêncio, mas decidida, centenas a caminharem para ele, disponíveis para ajudar no que fosse.Tinham sido demasiadas coisas… o peso da tragédia, a quebra da comunicação, da luz, da água, a sua cidade engolida pelo vento e despegada do país, como se todos os leirienses estivessem num limbo que já não era vida, mas ainda não era morte. Gonçalo Lopes não é de lágrima fácil, mas quando viu aquela multidão, armada até aos dentes de baldes e esfregonas, procurou que não o vissem fragilizado.Gonçalo ainda não fez 50 anos, mas nestes dias, desde a madrugada de quarta-feira, sentiu o tempo a fugir-lhe. Sente o tempo a fugir-lhe. Um sentimento de raiva e frustração, mas também de combate, de ação contra o medo, contra a desistência e pela cidade, pelo pai e pela mãe, professores respeitados em Leiria, pelos dois filhos orgulhosos que sabem que o pai não regressará a casa nos próximos dias. Foi nisso que pensou quando o som das galochas se tornou uma certeza e uma luz de esperança.Temos de fazer a nossa parte, também pelo Gonçalo que não merecia ter visto um vídeo promocional de um ministro em manga de camisa de luxo, a gerir a crise como se estivesse numa passerelle de Yves Saint Laurent. Uma indignidade. Consultor