Garantir os melhores para fazer melhor no setor público

São muitos os estudos que garantem que estudar mais é sinal de maior reconhecimento, de maior remuneração e, quase sempre, de maior felicidade.

Desde sempre que o ensino procura proporcionar mentes mais competentes e esclarecidas, com maior acesso à escolha e, consequentemente, mais capazes de tomar decisões. As empresas procuram estes trabalhadores que, capacitados para maior autonomia, garantem mais facilmente a inovação e desenvolvimento tão necessários no mundo competitivo em que se inserem.

O setor público, enquanto principal empregador, também pretende ter quadros competitivos e capazes, para não passar a imagem de um setor pouco produtivo e incapaz de ser rentável. Se tivermos em linha de conta que é o setor público o principal, ou até o único, responsável por áreas determinantes como a gestão do País, o poder local, a saúde, o ensino, a segurança, etc., facilmente justificamos o interesse que terá em recrutar os melhores para garantir que consegue produzir mais com menos e fazer melhor. Garantir os melhores e proporcionar-lhe espaços de trabalho felizes pode ser a chave para o crescimento e sucesso de Portugal.

Ao governo cabe garantir que as instituições estatais e o setor empresarial do Estado têm condições para cativar e segurar esta mão de obra determinante para a reforma e desenvolvimento do setor público. Estou certo que António Costa, experiente político, com muitos anos de governação e, enquanto líder do país nos últimos seis anos, sabe que é isso que é preciso fazer já nos próximos quatro, para impulsionar a economia. Estou certo que sabe também que o exemplo vem de cima e que, se o Estado tiver condições para recrutar os melhores, isso obrigará as empresas a darem também passos no sentido de não os perderem.

Querer recrutar um licenciado por 1268,04€ ou um doutorado por 1632,20€ (tabela proposta para 2023) é falta de vontade de segurar os melhores e é um mau exemplo para o setor privado.

Ora, partimos do pressuposto que todos conhecemos e reconhecemos esta realidade, daí que tenhamos aumentado a escolaridade para doze anos, diminuído os custos para quem quer estudar no ensino superior, pulverizado as oportunidades de cursos superiores pelo território nacional e, na passada semana, dado mais um passo para a criação das Universidades Politécnicas em Portugal, o que é um sinal de valorização do ensino superior, que visa trazer mais gente a realizar formação ao mais elevado nível.

Se sabemos todos isto, não se percebe como pode o Estado descuidar as condições de trabalho de tantos setores, como se tem verificado na saúde, na educação, na polícia, etc. É urgente que as instalações e equipamentos das instituições e empresas do Estado permitam conforto na ação profissional, garantam felicidade no trabalho e que os que trabalham neste setor não estejam sempre à espera de uma oportunidade para mudar de emprego.

As novas (e as velhas) gerações procuram cada vez mais reconhecimento profissional e social e isso consegue-se garantindo melhores condições de trabalho, que passam também por melhores remunerações. Querer recrutar um licenciado por 1268,04€ ou um doutorado por 1632,20€ (tabela proposta para 2023) é falta de vontade de segurar os melhores e é um mau exemplo para o setor privado, que acompanhará esta regra de sermos a mão de obra mais barata da Europa. Não espanta por isso que os que têm oportunidades por esse mundo fora partam para outros destinos. É talvez esta uma justificação para a palavra "saudade" só existir na língua portuguesa.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG