Foi muito, pouco ou "poucochinho"?

Rui Rio, o homem que se dizia estar condenado, que as sondagens davam como arrumado, cujo partido andava moribundo, renasceu. O "empurrão" de que Rio falava, com ironia, não
foi para o precipício, mas para diante. Na noite passada, muitos discursos já escritos estarão, esta manhã, a ser reescritos. Ou guardados. Ou destruídos.

O PSD não ganhou as eleições, é certo. Mas as expectativas eram tão baixas que as conquistas de Rio se tornam relevantes. (À hora do fecho desta edição, não há, ainda, resultados de Lisboa. Se ganhar Lisboa, Rio será, sem qualquer outro adjetivo nem forma de ver, Rio será o grande vencedor das eleições.)

Montenegro, Rangel, Jorge Moreira da Silva e outros putativos protocandidatos à sucessão terão de esperar. Com estas conquistas, Rio vai a votos no partido, e dificilmente o partido não lhe dará outra vitória e mais dois anos para chegar até às eleições de 2023.

O PSD não recupera em força no eleitorado urbano, nas grandes cidades e nos 15 concelhos mais populosos do país. Mas recupera fôlego, dinâmica, celebra vitórias e deixa longe os resultados de há quatro anos, que trouxeram a maior derrota autárquica de sempre para os sociais-democratas, o que levou à saída de Passos Coelho.

Jerónimo era, ontem à noite, um líder vergado ao peso de uma derrota. Perdeu câmaras que nunca pensou possível, desceu de votação no Alentejo, onde tem cada vez menos força, não recuperou bastiões em que apostava tudo. O PCP salva a noite com os resultados em Lisboa, mas, citando Rui Rio, é "poucochinho". E de Lisboa surge João Ferreira, muitas vezes apontado de fora do partido como futuro líder, que, como os tempos são outros, falou depois do secretário-geral e para cantar vitória.

O PCP está envelhecido e desgastado, já não manda no Alentejo, tem um eleitorado que já não lhe é fiel. Uma noite amarga. E Jerónimo admitiu-o. "Os resultados ficaram aquém do que esperávamos."

Ventura foi o primeiro a falar, porque encheu de tal forma o balão das expectativas que, rapidamente, teve de fugir dos holofotes e desaparecer. O Chega das presidenciais não é o mesmo do Chega das autárquicas. O partido que continua a ser de um homem só, não tem, para já, capacidade de chegar a todo o lado e convencer, eleger, fazer a diferença. As próximas eleições serão, de facto, o grande teste ao partido de André Ventura.

Costa ganhou as eleições. Nada que não se esperasse. O PS até pode vir a perder "apenas" dez ou 15 municípios, mas tal como noutras alturas, no passado, o que fica é o princípio da recuperação da "direita clássica", o que pode significar o princípio do fim de um ciclo socialista. Ou, pelo menos, do ciclo de António Costa. Ironia das ironias, ganhar eleições, mesmo por larga margem, nem sempre é sinónimo de festejar a vitória.

Jornalista

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