Fizeram serviço militar?

Este mês o Diário de Notícias cumpre 157 anos. Um século e meio de vida, em que a história do jornal se entrelaçou com a história do país. Para celebrar o aniversário, o DN organizou uma cerimónia intimista - quase, porque o online deu asas ao momento -, para a qual convidou o vice-Almirante Gouveia e Melo. Grande escolha, pois, na conversa que manteve com Rosália Amorim, deixou-nos um par de pistas para o futuro do país, que eu retomo aqui para lhes dar a minha interpretação.

Gouveia e Melo fala com a tranquilidade de quem não anda à cata de votos. O que é uma vantagem, pois além de dizer coisas mais refletidas, é ouvido com atenção. Sendo um militar altamente qualificado, tem um sentido de missão, foco e hierarquia à prova de bala. Falou de vacinação, de mar e de liderança.

"Se tivermos de sair todos desta sala por aquela porta, porque há um incêndio, só o conseguiremos fazer com disciplina. Senão, será impossível cumprir o objetivo." Foi assim que explicou o racional de atuação dos militares. Mais adiante, falou de ambição. De querer pensar mais além, de ter autoconfiança, de acreditar em nós. E de cumprir a ambição com o conhecimento e com a disciplina.

Enquanto ouvia o vice-Almirante, deixei o meu pensamento viajar por Tancos, onde cumpri serviço militar obrigatório. As suas palavras remeteram-me para muito do que ali aprendi: a disciplina que emana da união, o desenvolvimento do sentido de pertença, a ausência de segregação social e o entendimento dos símbolos nacionais. Eram as competências não formais da época, hoje substituídas pelas "soft skills". Entre umas e outras, interponho uma palavra: resiliência. Hoje ensina-se muito, e ainda bem, mas educa-se pouco para a superação.

O tema que me inquieta, bem se percebe, é o do serviço militar, que em Portugal deixou de ser obrigatório em 2004. Para justificar essa decisão, concorrem algumas ideias feitas que têm demasiado de impreciso. Primeiro, a ilusão de que após o fim da guerra fria já não seria preciso manter um aparato de defesa porque as guerras iriam acabar. O que se observa hoje é o contrário. O mundo está mais inseguro. A irrelevância do ponto de vista da defesa significa, por exemplo, deixar de controlar a dimensão oceânica do nosso país.

Um segundo mito é o de que o serviço militar só atrasa a vida dos jovens, retardando a sua entrada no mercado de trabalho. Este equívoco resulta do entendimento de que na escola - secundária ou superior - se aprende tudo o que é necessário para atacar logo o primeiro emprego. A realidade, porém, é bem diversa. Os empregadores querem resistência e superação - a tal resiliência - e perguntam invariavelmente aos candidatos o que fizeram ou sabem fazer para além da escola. Trabalharam nas férias? Fizeram o "gap year"? Aderiram ao voluntariado? Tocaram numa banda? Jogaram numa equipa? Andaram no grupo de teatro? Eu substituiria quase todas estas perguntas por um simples: fizeram serviço militar?

Ainda não me convenceram de que exista um método mais eficaz para dar resiliência aos jovens do que juntá-los aos pelotões de trinta - rapazes e raparigas de todo o país -, vesti-los iguais de verde, pregar na farda um retângulo verde e vermelho, e ensinar-lhes que o dia começa depois de cada um fazer a sua cama.

Seis meses seriam suficientes para fazer jovens mais autoconfiantes, com disciplina, com ambição e que gostem demasiado de Portugal para quererem emigrar. A economia agradeceria, o país ganharia. Voluntário ou obrigatório? No meio estaria a virtude.


Deputado e professor catedrático

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