Fine-tuning

"Please everyone stay in your castels." Entre as inúmeras anedotas comentários, imitações, paródias, que circularam a propósito da pandemia covid-19, há um meme que aproveitou a mensagem de agradecimento e apelo da rainha Elizabeth II aos súbditos britânicos, emitida a partir do seu castelo de Windsor em abril de 2020, para legendar a imagem da velha monarca com essa deliciosa ironia: "Por favor fiquem todos nos vossos castelos."

E, ressalvando os castelos de cada um, assim foi.

Em 2019 o turismo português continuava na rota ascendente, quer quanto a dormidas (+ 5%) quer hóspedes e receitas (+ 8%). Em 2020 afundou-se a pique, em Portugal (-75% em hóspedes e dormidas internacionais e -66% em receitas) e no mundo (-74% nas chegadas de turistas internacionais e -80% em receitas).

O que ainda aguentou alguma atividade turística, e mesmo assim sem contrariar ou contrabalançar a queda, foi a procura interna, isto é, os residentes em Portugal (nacionais e não nacionais) que, fruto das restrições às viagens internacionais, optaram por fazer turismo no nosso país. Assim, o turismo interno cresceu em 2020 +58% em hóspedes e +75% em dormidas. E então em 2020 inverteram-se os pratos da balança: se em 2019 o turismo internacional pesava 60% em hóspedes e o nacional 40%, em 2020 um e outro passaram para 37% e 63%, respetivamente.

Ficaram por Portugal, e que país descobriram! O impacto fez-se sentir sobretudo no interior centro e norte, no Alentejo mas também no Algarve. Em 2021 o acontecimento repetiu-se. No acumulado de janeiro a setembro, o mercado interno pesou 64% em hóspedes e 56% em dormidas.

Este fenómeno, não tendo paralelo em Portugal, não nos é específico, naturalmente. Todos os países registaram esse contrabalanço.

Ora, será que é possível pensar em reter os mercados internos "in their castles"? O que os fez ficar poderá significar que a (re)descoberta dos respetivos países onde residem veio para ficar?

Ou a atração é passageira e fruto das circunstâncias?

A reflexão proposta pelo Presidente da República é muito pertinente. Aprofundar o que atraiu o mercado interno e construir a partir daí propostas de valor é um desafio e uma oportunidade.

É certo que estamos todos com muita vontade de viajar, de conhecer novos destinos, de ter novas experiências, de nos reconectarmos física e espiritualmente com o mundo. Por isso creio que - e os movimentos internacionais em 2021 já o demonstram, ainda que timidamente - a retoma do turismo acontecerá "para fora".

Mas também é certo que ainda existem muitas incógnitas e restrições, quer as que decorrem da evolução da própria pandemia quer as que condicionam as operações aéreas. Acrescem as condicionantes económicas e (crescentes) ambientais, desde o preço dos combustíveis aos limites às emissões de CO2 (o setor de aviação civil  atualmente é responsável por cerca de 3% das emissões globais e a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em inglês) - que representa 290 companhias aéreas, compreendendo 82% do tráfego aéreo global pré-pandemia -, em outubro de 2021, a poucas semanas da COP26, comprometeu-se a zerar as emissões carbónicas até 2050).

Ou seja: olhar para o mercado interno para que este possa crescer e ganhar quota de mercado será uma questão de calibrar, de pequenas afinações, ou uma questão de revisão mais profunda de modelos?

Se me pedissem para apostar, diria que o turismo tem efetivamente uma oportunidade para consolidar e crescer no mercado interno. E que isso apenas exigirá uma afinação, fine-tuning, como referido pelo Presidente da República. Nada de revolucionário, portanto. Está tudo cá.

VP executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal

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