Fim da Inocência Estratégica: Entre o Instinto e a Doutrina

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Foi ontem tornada pública pelo Departamento de Guerra dos EUA a versão desclassificada da NDS (National Defense Strategy - Estratégia de Defesa Nacional).

O ponto fundamental da NDS não é técnico; é existencial. Ao ressuscitar a designação de Departamento da Guerra, Washington não está apenas a trocar o papel timbrado.

Está a declarar a obsolescência da ordem liberal internacional que os próprios Estados Unidos patrocinaram em 1945. A mensagem a Bruxelas e Berlim é brutal: o guarda‑chuva americano passou a ter balcão de faturação e as cláusulas de exclusão são leoninas.

Quem não se aproximar dos 5% do PIB em despesas militares, ou quem hesitar na contenção tecnológica a Pequim, arrisca‑se a ficar exposto às intempéries da história.

A segurança deixa de ser um valor partilhado e converte‑se numa mercadoria de luxo, graduada pela utilidade estratégica e disciplina orçamental de cada aliado.

A NDS 2026 é o braço armado e a operacionalização da NSS (National Security Strategy - Estratégia de Segurança Nacional). O que testemunhamos é a fusão entre o instinto político de Donald Trump e o pensamento de uma nova elite de falcões estratégicos.

Se a NSS fixou a visão de uma América centrada na soberania económica e num intervencionismo de custo‑benefício, esta NDS fornece os dentes a essa narrativa. Não é apenas dar corpo doutrinal a impulsos presidenciais; é um processo de retroalimentação.

Enquanto o Presidente quebra tabus diplomáticos com realismo transacional, os planeadores do Departamento da Guerra codificam esses sobressaltos em diretrizes de longo prazo, transformando a intuição numa máquina burocrática difícil de inverter.

Ainda assim, importa notar que esta convergência não elimina tensões: correntes do establishment veem esta doutrina com inquietação, mas perdem terreno na definição do horizonte estratégico.

A prioridade absoluta à defesa do território e o projeto da Golden Dome revelam uma América em modo de cidadela. O objetivo já não é projetar estabilidade no Médio Oriente ou na Europa de Leste, mas blindar fronteiras, espaço aéreo e infraestruturas do próprio continente.

Esta viragem tem consequências: se os EUA olham obsessivamente para dentro, o vácuo no corredor atlântico torna‑se um risco real para a segurança marítima e rotas de reforço. A doutrina passa a tratar aliados como ativos num balanço contabilístico, avaliados, classificados e, se necessário, depreciados.

A articulação entre NSS e NDS consolida o Corolário Trump: uma reedição musculada da Doutrina Monroe, adaptada por estrategas que traduzem geopolítica na linguagem que o Presidente privilegia: deal making e controlo de ativos físicos.

Ao listar a Gronelândia e o Canal do Panamá como ativos críticos, Washington sinaliza tolerância nula para influência externa no seu perímetro. A Europa deixa de ser um teatro prioritário e passa a ser um fator de risco a gerir com o mínimo custo.

Neste contexto compreende-se o tom crítico de Zelensky em Davos. A Ucrânia percebeu que deixou de ser o baluarte da liberdade para ser o primeiro ativo a liquidar no mercado de balcão do novo Conselho de Paz.

Os sinais acumulam‑se: fadiga de apoio e ausência de compromissos de longo prazo. Este Conselho não é um fórum de concórdia, mas o braço estratégico da contenção da China e da Rússia, reduzida a uma certa insignificância. A sua função é encerrar a frente europeia a qualquer preço, libertando o Departamento da Guerra para concentrar a sua letalidade no Pacífico.

A geopolítica da dissimulação começa a ser exposta. A paz em Abu Dhabi não é um fim, mas um inventário para a guerra que se prepara noutras paragens.

O relógio de Washington já corre noutra escala. E, nesta nova era, a hesitação é lida como irrelevância por parte daqueles que esta arquitetura procura disciplinar e não apenas proteger, muito para lá do ciclo político do homem que a inspirou.

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