Fazer de nós parvos

Pelas nove da manhã de ontem, o deputado Carlos Pereira (PS) dizia à TSF que a construção de uma pista suplementar ao aeroporto de Lisboa no Montijo era "uma relevante tomada de decisão" da parte do governo. Pelas 09.45, o gabinete do primeiro-ministro, que estava em Madrid, emitiu um comunicado desautorizando essa decisão do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e determinando a revogação do respetivo despacho. À mesma hora, fonte próxima de António Costa fazia chegar à imprensa que o chefe de governo "desconhecia" o dito. Em Madrid, na Cimeira da NATO, o primeiro-ministro recusava falar sobre o caso por estar "fora do país". Pelo meio-dia, o líder parlamentar do PS afirmava que "não sabia nem tinha de saber" da decisão do governo que, coincidentemente, o seu deputado Carlos Pereira defendera horas antes. Ao mesmo tempo, Mariana Vieira da Silva, ministra responsável pela coordenação política do governo, negava qualquer comentário sobre a ausência de Pedro Nuno da reunião do Conselho de Ministros, limitando-se a reforçar que o despacho do ministro tinha ordem de revogação. Horas depois, o próprio Pedro Nuno viria pedir desculpa pelo "erro de comunicação", assumir que o despacho estava já revogado e revelar que a solução ("o procedimento e objetivo definido") presente no despacho era do conhecimento do governo. À tarde, António Costa saudaria o recuo do ministro, abrindo ao mesmo tempo espaço para outras soluções que não a do Montijo, conforme as ideias, imagine-se, de Luís Montenegro, e contrariamente, pasme-se, aos tais deputados que haviam defendido a iniciativa de Pedro Nuno Santos, seu ministro.

Tudo isto é incompreensível, inexplicável e muito pouco digno.

É evidente que o país está a perder milhões de euros a cada ano que passa sem novo aeroporto. É evidente que Montenegro, como novo líder da oposição, não tem interesse nenhum em consensualizar posições com o governo em vésperas do seu congresso de tomada de posse. É igualmente evidente que Costa, que sabe bem a crise que aí vem, tem interesse substancial em partilhar responsabilidades da governação com o PSD ‒ coisa que repugnou veementemente enquanto dele não precisou. E é também uma evidência que o primeiro-ministro ter transformado o governo num torneio para a sua sucessão teria consequências na ação do Executivo.

Pedro Nuno não vai deixar de se comportar como mais-do-que-ministro, independentemente da sinceridade das suas declarações de ontem. É um líder político e há características que não se hibernam. Do mesmo modo que uma crise política desta dimensão não reaproximará António Costa da gestão quotidiana de São Bento, agora mais dedicado aos palcos europeus, por mais que tal servisse certamente para evitar circos como o relatado.

Pedro Nuno não deixará de ser proto-primeiro-ministro e Costa não deixará de ser proto-líder-europeu, com os visíveis efeitos que isso produz na vida dos portugueses. A breve intervenção do Presidente da República, mais à noite, refletia essa noção. Veremos se os eleitores ‒ que concederam uma maioria absoluta ao PS em nome de uma estabilidade de esquerda ‒ acordam a tempo para a instabilidade de coisa nenhuma em que os socialistas caíram.

Colunista

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