Falemos então de tulipas (ou túlipas)

Há quem escreva "tulipas", outros dizem "túlipas", a esganiçar o acento no ú, e ambas as formas são certíssimas e correctas, estando o problema na própria da palavra "tulipa", ou "túlipa", escrevamo-la de uma maneira ou doutra. O termo foi introduzido na Europa, ao que parece, por um diplomata flamengo de nome estiloso, Ogier Ghiselin de Busbecq, que era embaixador de Fernando I, do Sacro Império Romano-Germânico, na corte de Solimão, o Magnífico (estamos ao Império Otomano, portanto). Em 1554, Busbecq rumou a Constantinopla e de lá escreveu várias cartas, hoje célebres, uma das quais enaltecia a abundância floral do país, pejado de narcisos e jacintos, e também, informou o diplomata, "de uma planta a que os Turcos chamam tulipum".

A realidade, porém, é que os Turcos não chamam nada tulipum às túlipas, mas lale, e o que se terá passado, muito provavelmente e muito desgraçadamente, é que o senhor embaixador ou não percebeu o que o intérprete lhe disse, ou terá sido enganado por ele, que apontou para uma flor no campo, afirmou que tinha a forma de um turbante (tulband, em turco) e Busbecq achou que esse era o nome da planta. À conta desse erro, andamos nós a discutir há décadas se devemos dizer "tulipa" ou "túlipa" para designar a planta que, como sabeis, é da divisão Magnoliophyta, classe Liliopsida, ordem Lilales e família Liliaceae, ou seja, uma angiospérmica, ou melhor, espermatófita, também conhecida por magnoliófita ou antófita, possuidora, portanto, de um único filo, Anthophyta, e cujo bolbo contém alcaloides termoestáveis e cristais de oxalado de cálcio. Claro como água.

O embaixador Busbecq, além de ter disparatado no nome das túlipas e criado uma confusão dos demónios, enviou sementes e bolbos para a Europa, ainda que hoje se discuta muito, nem imaginam quanto, se o diplomata flamengo terá sido mesmo o introdutor das túlipas na Europa, por volta de 1554, ou se outros não o terão feito antes ou ao mesmo tempo do que ele. Há quem diga, inclusive, que o introdutor das túlipas na Europa terá sido um português, Lopes Sampaio, porventura Lopo Vaz de Sampaio, 8.º governador da Índia, que em 1530 as presenteou ao seu rei, mas, como sempre, e que eu saiba, por cá ninguém estudou o assunto a fundo.

A primazia da lilácea é, de facto, um debate intrincado, acalorado, para o qual convido os que agora me lêem, e que maior proveito terão indo directamente à fonte, no caso um livro formidável - The Tulip, da grande Anna Pavord (Bloomsbury, 1999) -, o qual, com grande cópia de pormenores, nos ensina tudo ou quase tudo o que há para saber sobre a história destas florezinhas.

A sua origem geográfica está envolta em mistério, mas parece que se estendia por uma vasta área que ia de Ancara até Erevã, na Arménia, depois prolongava-se por Bacu, no Turquemenistão, e daí pelas montanhas Pamir-Alai fora até alcançar a cordilheira Tião Chão, na fronteira entre o Cazaquistão, o Quirguistão e a região de Xinjiang, na China. Foi este o berço das lindas liláceas e, às vezes, vezes demais, ficamos desapontados com a espécie humana, e com a sua maldade lupina, intrínseca, sobretudo quando observamos a indescritível beleza daqueles cenários da natureza e, sabemos, ao mesmo tempo, que o Pamir serviu de albergue e refúgio a Bin Laden e à sua corja da Al-Qaeda, que tanta morte e tanta dor causaram, e que é em Xinjiang que vive a maioria do povo uigure, ou o que resta dele, após o genocídio e as bárbaras violações de Direitos Humanos que os chineses por lá têm perpetrado.

Há pouco, Michelle Bachelet despediu-se do cargo de Alta-Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas com um relatório devastador sobre as atrocidades e possíveis crimes contra a Humanidade cometidos precisamente na região de Xinjiang, a terra-berço das túlipas. O que amarfanha a alma e faz doer o coração não é apenas o cinismo sínico, mas a insensibilidade de nós todos, a indiferença geral perante o sofrimento alheio, o modo com que displicentemente calámos e atirámos para um canto o relatório de Bachelet, que a China tem tentado silenciar na imprensa de todo o mundo (Portugal incluído: quantas notícias surgiram sobre ele?). Mais de um milhão de uigures foram internados em campos de concentração, centenas de milhares de crianças foram separadas dos pais, há notícias confirmadas de fuzilamentos e de torturas e nós, aqui, neste canto do mundo, andamos alegremente entretidos a fazer palhaçadas infantis no TikTok, um aplicativo chinês que vigia ao milímetro, silencia e sufoca todos os críticos de Pequim, com destaque para os activistas uigures (veja-se, por exemplo, Tech Tent: Tik Tok and the Uighur Muslims, BBC, 29/11/2019).

No fundo, e a comparação é legítima, é como se existisse um relatório internacional sobre o holocausto dos judeus pelos nazis e todos nós continuássemos tranquilamente a ouvir a rádio do Terceiro Reich e a usar a sua tecnologia. Da próxima vez que gravar um vídeo palerma no TikTok, lembre-se disso, lembre-se de que está a alimentar um regime tirânico, e recorde, nem que seja por segundos, os milhares, as centenas de milhar de crianças uigures que são retiradas aos pais e educadas em campos de concentração. Se ainda é humano, não se esqueça disso.

Mas regressemos ao belo: no International Register, que a Real Associação de Produtores de Bolbos da Holanda publica desde 1929, estão averbadas mais de 5500 variedades de tulipas, que ensandeceram os Países Baixos durante uns anitos de frenesi botânico, a época da "tulipomania", como já iremos ver. Em finais do século XV, há registo de que eram cultivadas nos jardins de Mehemed II, o conquistador de Constantinopla, e ainda hoje o símbolo de Istambul é uma lilácea, mas só no sultanato de Solimão, o Magnífico, é que as tulipas se tornaram parte integrante da cultura otomana. A obsessão foi tal que um dos períodos da história otomana, o sultanato de Ahmed III (1703-1730), é mesmo conhecido como Lale Devri, a "Era da Tulipa" e uma das mais belas mesquitas de Istambul, em estilo barroco otomano, erguida em 1760, chama-se Mesquita de Laleli (ou, se quisermos, "Mesquita da Túlipa").

Não deixa de ser estranho que há 50 ou 70 anos houvesse tecnologia para produzir um rádio que durava gerações e hoje um computador esteja velho e caduco ao fim de três ou quatro. Não era suposto que, com o 'progresso' e a 'tecnologia', as coisas durassem mais, não menos?

Curiosamente, não existem registos de tulipas na literatura, nos herbários ou na pintura da Idade Média europeia: enquanto, já no século XIII, um poeta persa de nome impronunciável, Musharrifu'd-din Sa'adi, celebrava as tulipas nas trovas de Gulistan, no assombroso Retábulo Portinari, pintado pelo flamengo Hugo van der Goes circa 1475, hoje patente nos Uffizi, vemos várias e belas flores, mas nenhuma lilácea. E quando, em 1559, o grande naturalista suíço Conrad Gessner descreveu a floração de uma tulipa vermelha nos jardins do conselheiro Herwart, em Augsburgo, na Baviera, fê-lo como se estivesse a narrar uma grande descoberta, jamais vista na Europa, à qual chamou, não por acaso "turcarum". Os primeiros jardins botânicos do Velho Continente surgiram em 1545, nas cidades de Pisa e de Pádua, e, no ano seguinte, o explorador e botânico francês Pierre Belon iniciou uma viagem de três anos pela Turquia e pelo Levante, onde viu deslumbrantes tulipas, trazendo vários bolbos no seu regresso à Europa. Discute-se, por isso, se a tulipa vermelha que Gessner contemplou no jardim de Augsburgo terá sido fruto de sementes doadas pelo embaixador Busbecq, o tal que confundiu tulipa com turbante, ou pelo francês Belon.

A tulipa é a femme fatale da botânica, uma planta indiscutivelmente bela, lindíssima, mas traiçoeira e venenosa como poucas. Enlouquece os homens, destrói impérios, arruína os povos que se deixam seduzir pelo seu mistério. Mehmed II - ou, se preferirem, Maomé II - exterminou o Império Bizantino, fez tombar Constantinopla logo dois anos depois de ascender ao trono, mas foi incapaz de resistir ao poder das tulipas: no palácio que mandou construir na antiga capital bizantina, Topkapi Saray, ergueu nada menos do que doze jardins em que as flores-rainhas eram os jacintos, as rosas, os junquilhos, as íris, os cravos e, acima de todas, as liláceas. O fascínio que estas exerciam sobre os muçulmanos derivava da sua beleza, naturalmente, mas prendia-se também com um poderoso motivo religioso: a palavra turca para tulipa - lale - é grafada com as mesmas letras que em árabe se usam para escrever Alá, pelo que as tulipas eram vistas como uma alusão e uma invocação do divino, tanto mais importante quanto a fé islâmica impõe o aniconismo, ou seja, proíbe o culto das imagens e a representação de figuras do mundo natural ou sobrenatural.

Assim, e sobretudo a partir do século XVI, as tulipas tornaram-se omnipresentes na paisagem visual otomana, ornamentando os azulejos do palácio de Topkapi, surgindo na cerâmica Iznik por volta de 1535 ou 1540, em tapeçarias e dezenas de objectos profanos. O sultão Selim II, que governou entre 1566 e 1574, chegou a mandar vir 50 mil bolbos de Aziz, na actual Síria, e outros 300 mil de Kefe, hoje Fedosiya, na Ucrânia, obviamente sem nada pagar. Seguindo o exemplo do sultão, o grão-vizir e outros poderosos começaram a adornar os seus jardins com tulipas e mais tulipas e a voracidade foi tanta que o governador de Constantinopla teve mesmo de emitir um decreto a tabelar os preços das diferentes variedades. Das partes mais remotas do império chegavam bolbos que eram apreciados pela sua raridade, numa competição entre os mais ricos que o sultão sabiamente orquestrava e que era tratada como assunto de Estado: sintomaticamente, o jardineiro-chefe do palácio era também o chefe dos carrascos, responsável pelas decapitações e torturas.

Às espécies mais raras davam-se nomes fantásticos - "Aquela que Incendeia o Coração", "Estrela da Felicidade", "Grande Escarlate", "Inveja dos Diamantes", "Face do Amado", "Luz da Mente" - e os viajantes estrangeiros ficavam extasiados com as festas organizadas para celebrar as tulipas, como aquela que um grão-vizir ofereceu ao seu sogro, o sultão Ahmed III, nos jardins do palácio de Ciragan (hoje um hotel de luxo da cadeia Kempinski, cujo nome vem das lanternas espelhadas usadas para difundir a luz pelos jardins, criando uma atmosfera feérica). Nessa orgia memorável, apenas uma entre muitas outras, as portas do harém seriam abertas ao troar de um canhão e as cinco esposas do sultão foram transportadas aos jardins por eunucos que carregavam tochas ardentes; passeando nos relvados, centenas de tartarugas, com velas acesas espetadas no dorso, iluminavam a noite; e até os convidados estavam vestidos com a forma e as cores das tulipas, milhares e milhares delas, cada espécie identificada com uma placa em filigrana de prata.

Escusado dizer que as extravagâncias botânicas do sultão Ahmed III e da sua "Era da Tulipa" foram tantas e tão dispendiosas que levaram os cofres do Estado à bancarrota. Os súbditos revoltaram-se carregadinhos de razão e um golpe palaciano desferido pelos janízaros levou à queda do sultão, que seria forçado a abdicar e morreria logo depois.

Até a austera Holanda cedeu aos encantos das tulipas e a loucura foi tanta e tamanha que, na ânsia de possuir o bolbo mais raro, mais inacessível, foram esbanjadas fortunas, destruídos lares e famílias: no auge da "tulipomania", um bolbo de tulipa "Almirante van Enkhuisjen" chegou a atingir os 5400 guilden, o equivalente a 15 anos de trabalho de um operário qualificado, e houve bolbos vendidos pelo preço de uma casa nos canais centrais de Amesterdão. O que explicou este frenesi foi a riqueza súbita do "Século de Ouro", o período em que o estabelecimento da Companhia das Índias Orientais, em 1602, e o florescimento do porto de Amesterdão trouxeram um crescimento económico sem precedentes, criando uma nova casta de milionários composta por mercadores e banqueiros e, na sua esteira, governantes, homens de medicina e de leis, farmacêuticos, etc. Como sempre, explodiu o luxo: casas com fontanários, aviários e gaiolas com pássaros exóticos, templos e mausoléus estilo grego e, claro, tapetes de tulipas a perder de vista.

Adriaen Pauw, senhor de Heemstede, guardião-mor do selo das Províncias Unidas, tinha uma mansão em Harlém, onde as flores cresciam no meio de um jardim de espelhos, dando a impressão de vastas planícies de cor. Como também é hábito, os ricos e os poderosos começaram a competir entre si pelas mais raras e mais caras plantas. Pauw orgulhava-se dos seus exemplares de um bolbo raríssimo, "Semper Augustus", cada qual valendo 1200 guilders, o equivalente a três anos de salário médio na Holanda à época, algo como 80 mil euros actuais, ou mais.

Os que não podiam comprar tulipas, contentavam-se em tê-las pintadas nas paredes de casa e a pintura do "Século de Ouro" muito deveu a esta tara. Simplesmente, os quadros com tulipas eram também excessivamente valorizados e uma tela do grande especialista do tema, Jan van Huysum, custava cerca de 5000 guilders, quantia considerável, mas menos do que se pagava, imagine-se, por um bolbo de "Admiral Liefkens" e, sobretudo, da já citada "Admiral van Enkhuisjen". Num dos últimos leilões da "tulipomania", foram vendidos 90 lotes de flores pela quantia astronómica de 90 mil guilders, qualquer coisa como seis milhões de libras aos valores de hoje. O novo-riquismo era tal que seria alvo de escárnio em panfletos satíricos e até numa pintura de Jan Brueghel, o Novo, justamente intitulada Alegoria da Tulipomania, de 1640 (em França, onde também aconteceu loucura, os tulipistes foram alfinetados por La Bruyère).

O problema da "tulipomania" é que assentava num mercado de futuros, tal qual ocorre no mundo financeiro de hoje; ou seja, os compradores pagavam fortunas por um bolbo que tanto poderia crescer viçoso e lindo como revelar-se bem diferente da beleza prometida, ora por estar doente, ora por ter medrado em circunstâncias adversas, ora por ser essa a vontade e o desígnio da mãe-natureza. Houve também pragas malfazejas e charlatães que vendiam bolbos adulterados, até tingidos artificialmente ou manipulados com excrementos de pombos. Com a especulação ao rubro, qual bolha botânica (ou bolha bolsista botânica), o mercado estoirou, levando à falência de centenas de mercadores, arruinando pacatos burgueses, causando miséria e dor a muitas famílias. Durante muitos anos, a arte e a cultura neerlandesas exibiram as túlipas como um abjecto símbolo de vanitas, a fugaz vaidade que tanto oprime e entontece os humanos - ontem como hoje.

As túlipas do nosso tempo são os biliões de gadgets que compramos e os outros tantos biliões que deitamos fora. Pense, nem que seja por breves instantes, quantos telemóveis já teve na vida, quantos comprou, quantos já largou ao lixo. E, já agora, veja quantas pessoas mantêm ainda o primeiro telemóvel que compraram na vida. Como somos tão tontos como os sultões otomanos ou os burgueses holandeses, deixamo-nos ofuscar pelo brilho do design, pelo statu das marcas, exactamente como outrora homens sensatos entraram em competições adolescentes para terem o bolbo mais bobo, a túlipa mais vistosa. Portando-nos como crianças, somos presas fáceis de uma das armadilhas do nosso tempo, a "obsolescência programada" (planned obsolescence): até há poucos anos, frigoríficos, automóveis, aparelhos de rádio, casacos e vestidos eram pensados e fabricados para durar uma vida e até mais do que isso, passando de mão em mão, de geração em geração. Isto pelo simples facto de que a virtude que os consumidores mais valorizavam num electrodoméstico ou noutro bem qualquer era a durabilidade, a perenidade. Hoje, deixámo-nos cair no engodo dos fabricantes e aquilo a que damos valor já não é a longevidade ou a funcionalidade, mas apenas e tão-só a estética, o design, a marca e a moda, o conselho de uma celebridade, o apelo de uma influencer.

A esmagadora maioria dos objectos que nos rodeiam têm vida curta e são de desgaste rápido pelo simples motivo de que os fabricantes assim os concebem e constroem, isto é, são deliberadamente feitos para durarem pouco tempo, alimentando uma espiral de consumo e uma vertigem de desperdício que enche os bolsos de uns à custa do suor de todos. Os iPhones são o exemplo mais acabado: de tempos a tempos, lança-se com grande alarido um novo e lustroso modelo, com mais design e "funções". À porta das lojas da Apple acotovelam-se milhares de pessoas, sobretudo adolescentes, a matarem-se na ânsia de terem o último grito - acima tudo, de o terem antes de todos os outros, para o poderem exibir aos amigos e colegas ou para o mostrarem urbi et orbi, como um troféu de guerra. Passam dois, três anos, ou nem isso, e logo o novo passa a velho, cai 10, 15, 20 vezes o seu valor, vulgariza-se, perde interesse (dizemos ser democratas, mas não no que consumimos). Quanto custa hoje um telemóvel fabricado há 6 ou 7 anos? Nada, quase zero. E quanto pagámos por ele na altura? Muito, uma fortuna. O iPhone 14, lançado há umas semanas, custa 1400 euros, no mínimo: estará tudo louco, Deus meu?

Não deixa de ser estranho que há 50 ou 70 anos houvesse tecnologia para produzir um rádio que durava gerações e que hoje um computador esteja velho e caduco ao fim de três ou quatro. Não era suposto que, com o "progresso" e a "tecnologia", as coisas durassem mais, não menos? Mais: outrora, muitos artigos tendiam a valorizar-se com o tempo (um bom relógio comprado em 1920 vale hoje muito mais do que na altura); com os actuais bens de consumo passa-se o inverso, degradam-se e perdem valor em poucos anos, e rapidamente se convertem em lixo. Quem vir uma tabela com a evolução de preços dos modelos dos iPhones, facilmente constatará que todos eles, sem excepção, perdem valor de mercado a um ritmo alucinante (quem controla o valor é, aliás, o fabricante, pois é ele quem gere o ritmo das novas saídas). Pagamos fortunas por lixo. Lixo de luxo, é certo, mas sempre lixo.

Hoje, tudo está sujeito à lei do desgaste rápido: computadores, programas informáticos que num ápice se desactualizam, impressoras que constantemente avariam e encravam, telemóveis, automóveis, habitações, vestuário, até as relações humanas. Não é por acaso que as maiores fortunas do mundo pertencem aos empresários do lixo efémero, a quem ninguém pergunta o óbvio: se ao fim de três ou quatro anos é preciso instalar um novo programa no computador ou mudar de telemóvel, não significa isto que os programas informáticos ou os telemóveis que nos tinham vendido, anunciando-os como prodígios, eram, afinal, uma porcaria efémera? Não mostra isto que os produtores se movem por um único e exclusivo fito, o lucro, e não pelo interesse objectivo dos seus clientes de terem bens que durem e perdurem? A armadilha da obsolescência programada vai ao ponto de os fabricantes impedirem o acesso ao interior dos bens que vendem, os quais são selados para que não lhes possamos trocar a bateria ou mandar consertar quando avariam.

O resultado de tudo isto são montanhas de desperdício, colossos de lixo de plástico, um atentado ao planeta, um gigantesco monumento à infantilidade e à avidez lupina de milhões de seres humanos, que não percebem o engano em que permanentemente caem. De caminho, jovens adolescentes sofrem mil angústias pelo telemóvel da moda que não conseguem comprar, em casos extremos prostituem-se ou suicidam-se, enquanto os adultos se matam a trabalhar para adquirir o novo que vira velho. À semelhança do que ocorreu na Holanda e no Império Otomano, a catástrofe anuncia-se sob a forma de desastre climático, de infelicidade quotidiana, e até mesmo os fabricantes manhosos irão pagar pelo ardil, surgindo cada vez mais notícias de que, à conta da rápida obsolescência de certos produtos, os compradores estão a perder a sua "lealdade às marcas" (ver, por ex., a reportagem na Forbes do passado 29 de Agosto).

O cúmulo da insanidade (e da puerilidade) surge agora sob a forma do Metaverso, um universo paralelo em que podemos assumir novas identidades e perfis e termos a linda vida que quisermos. Tudo se passa no mundo digital, irreal, e daí não passa, mas nem isso demove milhões de pessoas de quererem viver uma vida-outra, totalmente artificial: há já quem pague fortunas, 15 mil dólares ou mais, para ter uma carteira Hermès inteiramente virtual, para a poder usar e exibir no cadaveroso reino do Metaverso, enquanto outros adquirem ilhas, mansões, automóveis de luxo. É espantoso, assombroso, que, enquanto o planeta arde, ou por causa disso mesmo, se invistam biliões numa coisa inexistente, puramente virtual, de onde estão ausentes as sensações verdadeiras, o calor e o amor, os afectos e os sentimentos. Aquilo a que Umberto Eco chamou a "irrealidade quotidiana" ou que o filósofo Byung-Chul Han apelidou de "não-coisas", invade-nos e devora-nos a cada instante: a última vítima surgiu há poucas semanas e foi uma ministra portuguesa, coitada, que, perante um fogo que devastou 25% do Parque Natural da Serra da Estrela invocou o "algoritmo" para minimizar o que a realidade lhe gritava. De resto, ao longo da pandemia, não fomos governados por humanos, mas por índices Rt, algoritmos, curvas e gráficos, o que talvez explique o absoluto desprezo com que se condenaram à morte centenas de idosos vulneráveis, enquanto outros grupos de bem menor risco eram eleitos como prioritários.

Ou seja, e em suma, cuidado com as tulipas: tão belas, mas tão carnívoras.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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