Faça-se uma lei para demitir ministros

O Presidente da República, que tem fama de dormir muito pouco, deve andar a dormir quase nada, porque vê o Estado a perder autoridade, como previu, e não vê capacidade para dar a volta. A sondagem de ontem da Aximage, que o DN publicou, mostra Marcelo amarrado a Costa em queda acentuada de popularidade e os entrevistados a pedirem mais exigência ao inquilino do Palácio de Belém. Avisado que está pelos eleitores e por Marcelo analista, Marcelo Presidente prepara um futuro (ainda lhe faltam quatro anos e meio de mandato) em que o primeiro-ministro não se chame António Costa. Por muita sintonia que jurem em público, já não conseguem disfarçar. Estão cansados!

O primeiro-ministro é que é surdo ou faz de surdo, porque nem atende à vontade de Marcelo (na gestão da pandemia) nem ao desejo dos portugueses (remodelação governamental). Costa caminha com um manifesto excesso de confiança, pensando estar a salvo de males maiores, enquanto a oposição for o que tem sido, seja à direita seja à esquerda. Percebe-se. Quando é notícia o momento em que toda a direita junta consegue ultrapassar as intenções de voto do PS, significa que ainda está muito longe o momento em que a direita pode valer mais do que a esquerda. Sendo que essa esquerda estará sempre mais refém do PS, quanto mais a direita puder sonhar com uma vitória.

É, aliás, esta sensação de que tudo pode ser feito que permite ao ministro Eduardo Cabrita colecionar desastre atrás de desastre à mesma velocidade que a oposição coleciona pedidos de demissão e os comentadores sentenciam que desta vez é que Eduardo Cabrita vai deixar o governo. A sentença "desta vez é que é" parecia tão verosímil há dois meses, há um, há duas semanas como ontem. O tema aparece nas sondagens, mas deve ser apenas por descargo de consciência e o que não se percebe é que ainda existam dois em cada dez inquiridos a dizer que não é preciso remodelar o governo.

O senhor ministro das golas antifumo, da morte de um imigrante no aeroporto, do chefe da PSP à saída de Belém a desautorizá-lo, dos imigrantes em Odemira e do Zmar, do automóvel em excesso de velocidade a matar um trabalhador na autoestrada, dos imigrantes na cadeia de Caxias à espera de melhores dias, até ao relatório dos festejos do Sporting em que o ministro mentiu com todos os dentes que tinha, este ministro mantém-se em funções e nós abrimos a boca de espanto, perguntando: como é possível?

Pela enésima vez, este governo tenta atirar-nos areia para os olhos, propondo que se altere a lei para que fique claro o que só eles não são capazes de ver claramente. Sobre a autorização de manifestações que não tem de existir, até à forma como elas devem ser organizadas que têm competências bem definidas, o executivo volta a defender que é preciso mudar a lei para definir até à vírgula as competências de cada um. Fica como conselho que considerem a hipótese de ficar definido em lei, com exatidão, as circunstâncias em que um(a) ministro(a) deve ser demitido. Havendo lei para definir estas circunstâncias, Eduardo Cabrita só continuaria no governo se estivesse escrito em letra de lei que um ministro só pode ser demitido se ele quiser.

Jornalista

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