Europa e África: uma relação muito complexa

Começou ontem e continua hoje em Bruxelas a sexta cimeira entre a União Europeia e a União Africana. Aproveito a ocasião para partilhar algumas reflexões pessoais sobre o relacionamento entre a Europa e um continente que absorveu mais de três décadas da minha vida profissional, incluindo como diretor para África das operações do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Um xadrez que abrange 82 países e à volta de 1,7 mil milhões de pessoas só pode ser bastante complexo. Essa complexidade é agravada pelos desequilíbrios que a história provocou e pelas disparidades de desenvolvimento que existem entre os dois continentes. Por isso, o estabelecimento de parcerias de igual para igual deve ser a prioridade absoluta para ambas as partes. Esta é uma questão extremamente sensível. Nem sempre os dirigentes europeus têm mostrado suficiente tato político. Ainda existe uma lógica que vê doadores, de um lado, e necessitados, do outro. Ou, pior ainda, que olha para África como uma zona de instabilidade, que, conjugada com uma pressão demográfica ímpar, acabará por provocar migrações em massa com destino à UE. Para quem reflete assim, África aparece como um sorvedouro de dinheiro e uma ameaça.

A cimeira, prevista para 2020, foi sucessivamente adiada por causa da pandemia. Acontece agora, copresidida pela França e pelo Senegal, por estarem, neste momento, à frente das respetivas regiões. Não é a melhor coincidência. Existe, hoje, um sentimento antifrancês na África Ocidental e Central. E o presidente senegalês, Macky Sall, e mesmo Dakar e a sua elite, são vistos como os parisienses da África subsariana. Isto tem dado azo a que se diga que se trata de mais uma cimeira inspirada pelo Eliseu. Além disso, ficou a impressão de que, durante os trabalhos preparatórios, não se prestou atenção suficiente às preocupações dos países anglófonos e lusófonos.

A verdade é que o continente africano é muito diverso. Cada sub-região tem características específicas e até preconceitos profundos em relação às outras. Basta ouvir, como muitas vezes ouvi, o que diz um político da África Austral sobre a situação em certos Estados da África Central ou Ocidental para se perceber que a fachada esconde muitas brechas.

Estabilidade e prosperidade resumem as aspirações dos participantes.

A estabilidade pede que haja uma governação competente, em sintonia com os anseios das populações e capaz de proteger a sua segurança e os seus direitos. Esta é uma área que exige um diálogo franco entre os parceiros, para definir as responsabilidades de cada um. Desenhar planos em Bruxelas e depois desembarcar para os aplicar no Sahel, ou noutro sítio, acaba por levar à rejeição dessas iniciativas e dar espaço a derrapagens, como está a acontecer no Mali e na República Centro-Africana. Também não se pode aceitar uma junta militar no Chade e dizer que não a outra, no Burkina Faso, por exemplo. Ambiguidades assim só servem para desacreditar a cooperação vinda da Europa. Mais ainda, em matéria de luta contra o terrorismo é imperativo obter resultados visíveis sem demoras. A contínua deterioração da situação de segurança, no Sahel e mais além, pede que se equacione as razões do fracasso e que, com base nas lições apreendidas, se opere de maneira diferente.

A prosperidade deve assentar em cinco pilares. Primeiro, na luta contra a corrupção. Segundo, na eletrificação do continente. Bruxelas diz-nos que 50% da população africana não tem acesso à energia elétrica. Esse número está obviamente subestimado. Todos sabemos que as redes elétricas funcionam apenas quando funcionam, ou seja, são mais longos os cortes do que o abastecimento. Terceiro, numa revolução verde, que modernize a agricultura e a pecuária. Quarto, na industrialização, no processamento local das matérias-primas e dos produtos agropecuários. Quinto, na abolição efetiva das barreiras alfandegárias entre os países africanos. As trocas entre esses países não representam mais de 15% do comércio externo do continente. É muito pouco.

Vamos, assim, esperar pelos resultados da cimeira. E batalhar com otimismo.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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