Eterna semana de ponte

Foi você que pediu uma semana de só quatro dias de trabalho? Espanha já a ensaia e cada vez mais empresas e países testam e implementam esta nova tendência laboral. No ano passado, a Microsoft do Japão experimentou esse horário de fim-de-semana prolongado. Verificou-se um aumento de produtividade de 40%, uma redução em 23% na conta da electricidade e uma percepção positiva de 90% dos colaboradores, associada à redução do trânsito. Quatro dias com 32 horas de trabalho já existe, agora também aqui ao lado, e, portanto, não é uma quimera de unicórnios e preguiçosos, mas sim uma mais-valia para quem trabalha mas quer viver e que junta diferentes benefícios, como o aumento do rendimento profissional, a criação de emprego e a atenuação da pegada ambiental. Afinal, nunca se produziu tanto como actualmente, o que significa que devemos começar a trabalhar menos para reequilibrar os ganhos.

Ter o mesmo salário e estar ao serviço apenas quatro dias, para muitos um sonho tornado realidade. Na Nova Zelândia, as experiências igualmente têm sido um sucesso, com a produtividade a subir, o stress a diminuir e um maior equilíbrio entre vida familiar e profissional. É reconfortante saber que há países como a Holanda ou a Dinamarca com semanas de cerca de 30 horas ou que nações como a Finlândia experimentam outras soluções, como o rendimento básico incondicional, também com êxito. A atribuição dessa prestação mensal a todos os cidadãos, independentemente da sua situação financeira, permitindo-lhes viver com dignidade e beneficiar da economia, teve impactos positivos no emprego, na segurança económica e na saúde mental. Enfim, é reconfortante saber que pelo mundo se vão ensaiando outras modalidades laborais, apresentando-se medidas para melhorar a qualidade de vida, protegendo o ambiente e empregando os recursos públicos em nome do bem comum.

Mas não passa de reconfortante porque, infelizmente, aqui por Portugal subsiste a narrativa do trabalhador indolente que tem de ser controlado, ainda há pouco tempo se cortavam feriados e muitas empresas seguem almejando a jornada 996 - das 9h às 21h, seis dias por semana. Como se não bastasse, sempre em benefício somente de uma minoria pária e retardada que desdenha de todas as alternativas e apenas visa a manutenção dos seus privilégios. A verdade é que, com o mundo sindical estilhaçado e as funções em transformação digital acelerada, a maioria dos portugueses se conforma com a semana de 60 ou 70 horas, acumulando empregos para pagar contas. Que remédio! Entretanto, continuamos a ser um dos países com maiores discrepâncias de rendimentos entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos, com milhares de trabalhadores completamente desumanizados, a quem sobra tempo apenas para jantar e desmaiar em frente à TV - milhares deles depois de terem passado longas horas sequestrados em frente aos ecrãs dos computadores de trabalho, porque muitas chefias lusas pouco habilitadas ou gostam de escravizar ou, mais do que remunerar a produtividade, preferem pagar uma espécie de permanente disponibilidade.

O desenvolvimento tecnológico não pode apenas servir para dar mais lucros às empresas e devia permitir igualmente mais tempo de lazer para os trabalhadores. É mesmo esse o destino das sociedades avançadas, para o qual Portugal perdeu o bilhete. E já não fez ponte.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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