Estou furioso: se for votar, sou criminoso!

Estou mesmo furioso: nestas Presidenciais, se sair de casa para ir votar, sou criminoso! Se consultarmos o site oficial do SNS, há uma clarificação sobre este assunto:

"Não cumprir o isolamento é crime?

Sim. Quem não cumprir o isolamento pode incorrer num crime de desobediência civil e/ou propagação de doença e ser punido com uma pena de prisão ou multa." (Crime de desobediência, art. 348 Código Penal).

Cá em casa ficámos - os cinco - em isolamento profilático desde dia 18 de janeiro, determinado pelo SNS24. Bem! Dois de nós cruzaram-se com a D. Fernanda, que trabalha connosco cá em casa há alguns anos, e que testou positivo.

Escrevo estas palavras no dia das eleições. Ficámos naquela janela de tempo pós dia 17 janeiro em que já não seria possível pedir outro método de voto. O nosso local de voto é numa escola primária mesmo do outro lado da rua - da varanda de casa, quase que é possível ver as urnas de voto. Ver a democracia a funcionar, só para alguns, é constrangedor - é o sentimento do momento!

Alguns dirão que foi azar, ter ficado nesta circunstância neste período de tempo. Discordo. O que falta é mesmo que o processo eleitoral seja tratado como "o" ato da vida dos Cidadãos e da Democracia, que lhes está deliberadamente acessível através do voto "massivo". Há um "como" fazer isto muito claro e tem um nome: VOTO DIGITAL!

Exatamente 22 anos depois - fim do século passado - de ter feito um projeto numa cadeira do Técnico, que era um "sistema de voto eletrónico", este é ainda um tema de discussão. Já dizia o Professor José Tribolet que a engenharia servia para transformar ciência em produtos e serviços úteis às Pessoas, e assim conseguir tornar as sociedades mais felizes. Ah, jovens inconscientes, que aprenderam que podiam mudar o mundo por saber fazer coisas... afinal é preciso vontade de alguns - mas já lá volto...

Em plena segunda década do século XXI, deixo algumas notas mentais que merecem discussão pública com ações no presente, para resultados no futuro:

1. VOTO DIGITAL já! E para todas as eleições. Mude-se - já - o nome de "Voto Eletrónico" para "Voto Digital". É que o primeiro "fala-se" há muitos anos. Pode ser que do segundo se possa dizer "faça-se" em poucos anos. E depois, pode ser que se tenha criado estigma à designação anterior, servindo o #VotoDigital para desenvolver uma #DemocraciaDigital.

2. Risco técnico: pouco! Do ponto de vista técnico há tanto risco no processo de voto, como pode haver nos milhares de milhões de transações financeiras que acontecem digitalmente no mundo em cada milésimo de segundo, ou ainda nos sistemas críticos que mantêm um avião no ar com mais de 200 Pessoas; ou ainda... no ato de violação de uma urna física.

3. Falei com o Mestre: Ao escrever este artigo, perguntei ao Professor Tribolet se havia alguma explicação lógica para o voto digital não estar disponível. Resposta dele: "a única explicação que vejo é o medo que alguns partidos possam ter no resultado do voto massivo popular". Sobre risco técnico, visto do lado das empresas, da academia, e dos tecnólogos, estamos conversados.

4. O ponto 3, traz ainda o tema "vontade": Vontade de implementar. Não havendo constrangimento tecnológico, resta o travão das "vontades conservadoras" que estão a travar o normal funcionamento da democracia. Parece-me ser, por isto, um tema apartidário. Descomplicar a discussão do campo político, e discuti-la no campo técnico e prático parece-me sensato - defeito profissional da engenharia que transportamos para a gestão.

5. Ainda sobre a vontade política: todos os que lutam por desenvolver e amadurecer a democracia - leia-se reduzir abstenção, facilitar o processo de voto, preferir a votação massiva não dependente das condições do tempo no dia das eleições - poderiam unir-se para pôr técnicos a encontrar soluções para que o voto digital possa avançar.

6. Para os puristas do voto na urna: um processo de transição híbrido, em que o ato museológico de votar numa urna com caneta - que deixará alguns mais confortáveis numa fase inicial - pode funcionar de forma híbrida com um modelo de voto digital. Assim, a transição para os conservadores poderá ser mais suave, e não vem mal ao mundo nisso!

7. Voto na Grécia Antiga: enquanto escrevo estas linhas peço ao Professor e Filósofo António de Castro Caeiro alguma literatura sobre o processo de voto da Grécia Antiga (1). Enviou prontamente, após explicado o propósito. Havia duas formas de eleições: a) por sorteio e b) por consenso popular. Sem desenvolver sobre o método de escolha dos candidatos, nem sobre que cidadãos eram elegíveis para votar - identificam-se, obviamente, profundas diferenças, importa sublinhar, que se usaram métodos como braço no ar, feijões - literalmente feijões brancos e feijões marrom - tendo o método de contagem de voto mudado também ao longo do tempo. Imagino que quando se passou para a urna, papel e caneta, terá sido também um enorme desafio na sociedade da altura. Vamos continuar a fugir de migrar o papel e caneta para o #VotoDigital? Porque não o #VotoEmMobilidade?

8. 500.000 em Abstenção "forçada": Aqui sim, vem mal ao mundo! Se a matemática não me falha, ficaram cerca de 100.000 cidadãos infetados com COVID-19 entre o dia 17 e o dia 24 de janeiro. Se considerarmos que cada uma destas pessoas esteve em contacto com 4 pessoas, podemos ter cerca 500.000 pessoas que, como eu, vão contar para efeitos eleitorais, para a abstenção, por impossibilidade de se poder deslocar ao local de voto.

Alguns perguntarão qual a importância deste tema, quando morrem tantos pela pandemia. Em dia de eleições são mais 275 Pessoas. Compreende-se que o assunto ocupe a mente de todos no momento. É um assunto urgente. Mas há assuntos importantes que podem, em paralelo ser pensados, preparados, desenvolvidos. Porque sempre que deixamos assuntos importantes por resolver, acumulamos assuntos urgentes para depois combater.

Escrevo estas palavras no dia das eleições.

Hoje, aqui em casa, queríamos votar. Mas ficámos, da varanda, a ver a democracia funcionar.

Respeitando a lei, não fui votar. Por isso, estou furioso: se fosse votar, seria criminoso!

#VOTODIGITAL para mais #DEMOCRACIA e mais #CIDADANIA!

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(1) Fonte: Avasthi, R. (1958). ELECTIONS AND ELECTIONEERING IN ANCIENT GREECE. The Indian Journal of Political Science, 19 (3), 276-281. Retrieved January 25, 2021, from hppt://www.jstor.org/stable42743613

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Pedro Afonso, CEO VINCI Energies Portugal

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Pedro Afonso é CEO da VINCI Energies Portugal e vice-presidente do Programa VINCI para a Cidadania. É autor da obra "Leadership - The Power of Giving Back" e orador regular em conferências sobre Liderança, Pessoas e Futuro. Antigo aluno do Colégio Militar, licenciou-se em Engenharia Informática e de Computadores, com especialização em Sistemas Computacionais pelo IST. Completou um Advanced Management Program pela Universidade Católica Portuguesa e obteve formação em Entrepreneurship for Venture Capital e Design Thinking pela Universidade de Stanford, Califórnia. Acredita que a liderança de equipas e os projetos empresariais só fazem sentido se contribuírem para um futuro mais humano e sustentável. É assim que olha para a liderança: com sentido de Giving Back.

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